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quinta-feira, 23 de janeiro de 2020


Não reparo e já anoitece
e crescem as sombras encobrindo a afeição
e quase não reconheço os objetos
que consomem meus dedos

aleijados
aleijada

toda essa tristeza talvez seja
apenas uma experiência estética nula
– um tipo de pobreza
que espuma no canto da boca
e elege imagens infames

Anoitece e os homens maquinam
__________________________uma extensa chacina
e a falsificação do que resta de gentil
é apenas uma sombra que nos envolve
a nós e aos objetos mortificados
entre o polegar e o indicador

não nos tornamos alegres
antes mais ignóbeis
como a espuma que pinga da boca
e nos faz esperar a manhã
como quem nasce sem reparar
e se agarra à beleza
mesmo sabendo de sua inutilidade

Agora escuto urros a noite toda
[de portas trancadas]
mas as frestas são impermeáveis à esperança
e nossas carnes triviais
ofertadas enquanto produzimos
as travas das portas sempre escancaradas

Não reparo e já é noite


luiz carlos quirino

sábado, 16 de março de 2019

a biografia dos insetos









Talvez um dia
alguém escreva a biografia
dos cupins que percorrem
assombrosas extensões
nos pés dos homens imóveis
muito mais do que nas casas velhas
e correm de lá pra cá feito cartas
esticando um fio de memória
se olharmos devagar
enquanto o automóvel segue ligeiro
junto ao banhado à beira da rodovia
lembram o mergulho das perdizes
alguns insetos oxigenam o sangue dos homens
alimentando-se de suas perdas
sonhando reviver certas palavras
já quase sem pronúncia
como pode ser delicada a morte
quando cometida por um inseto
como pode ser sonora
mesmo que tenhamos ouvidos tão pequenos
e nossas pernas sejam tão frágeis
e não aguentem muito mais
do que um lampejo da verdade
sem se dobrarem
somos tão lentos perto deles
nosso léxico tão mais pobre
perto deles somos tão vulgares


LUIZ CARLOS QUIRINO