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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026



ainda é meio cedo 
amor 
por isso te peço 
não repares 
na cadeira que gagueja 
no pensamento puído 
e na voz quebrada

o mês recém passou da metade 
e já preciso economizar nas palavras

vê bem 
lá no pátio a galinha se empoleira 
na imagem que não consegue sustentar 
nem uma frase cafona 

então serei o mais breve possível 
para que não percas teu ônibus 

repara
como os vivos estão sempre atrasados 
esticando as rugas contra 
os segundos

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025


bato na porta
eu mesmo abro
do outro lado não tem ninguém

 
dobro correndo a esquina
será que vou ser descoberto
      pelado
numa quarta-feira à tarde? 


onde foi parar o poema mesmo?
olha  


fica sabendo
que nem tudo é feito para
ser lido em voz alta 


guarda bem este segredo
que compartilho contigo
cheio de vergonha

 

 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025


que animal restou no fim
quando nada mais te lembrava o lar 


aquele que te acompanhava
              e cavava silêncio 


porque entendia o gesto
de deixar estar –
caminho que se revela na hora da morte 


a ele
a ti – na hora da vida
pelo portão aberto

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

 

onde

o último mês do ano é quase entrada

a roupa estendida acena

ao distraído

 – não precisa acrescentar

                          coisa nenhuma

– deixa

é tempo e evapora vencendo a fibra

dia aceso e quarado

                                  – deixa

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

A crise dos sonhos

 

Em 1992 um fato curioso estampou as manchetes de alguns jornais: os moradores da cidade de Brejinho de Nazaré, no Tocantins, relatavam não estarem mais sonhando. Tudo começou quando uma professora pediu para que os alunos registrassem seus sonhos durantes três dias e, ao final do período, escrevessem uma redação. No dia combinado, para sua surpresa, nenhum deles havia conseguido completar a tarefa. Pior do que isso, eles não tinham nem começado. A desculpa parecia combinada, uma vez que todos alegavam não ter nem começado porque simplesmente não sonharam. Nas semanas seguintes, a própria professora passou a prestar mais atenção às suas noites de sono e, para sua surpresa, também não estava sonhando.

Não demorou muito para a história se espalhar e todos os moradores se darem conta de que, por algum motivo, não conseguiam sonhar. A imprensa local fez longas reportagens onde desenvolvia algumas hipóteses. Uma delas, por exemplo, questionava se a fuga dos sonhos não estaria relacionada a um possível trauma coletivo pelo qual os moradores haviam passado. Isto porque, alguns meses antes, os pedaços de um satélite de grande porte cortaram os céus justamente numa noite em que todos estavam reunidos na praça da cidade assistindo ao filme Guerra dos mundos. Houve muita correria; alguns, no entanto, ficaram paralisados, outros se ajoelharam e começaram a rezar, pois pensavam estar diante de uma invasão alienígena real. Passado o susto, seguiram suas vidas normalmente, e a história acabou se tornando parte do folclore local.

A crise dos sonhos ganhou o imaginário nacional, por mais um tempo ainda, após uma equipe do fantástico chegar à cidade para investigar o assunto. Junto com ela o Padre Quevedo, famoso por desvendar mistérios que desafiavam a lógica. A coisa toda ficou um pouco mais esquisita quando eles não puderam terminar a reportagem que haviam apenas começado, porque, um dia após sua chegada, os sonhos voltaram. Até hoje não se sabe muito bem o que levou os mais de quatro mil moradores de Brejinho de Nazaré a pararem de sonhar durante alguns meses.

   

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Travel agency for ordinary places

 

Soube por intermédio de um amigo da existência de uma agência de viagens chamada Travel agency for ordinary places. Não consegui confirmar as informações, mas ele me disse que ela estaria situada nos Estados Unidos, mais especificamente no estado da Flórida. Talvez eu não tenha encontrado nada a respeito na internet porque, segundo ele, trata-se de uma agência de viagens destinada aos multimilionários. Ou seja, nem perdem tempo divulgando seu trabalho para pessoas como tu ou como eu. O negócio é (supostamente) o seguinte: proporcionar aos ricaços a experiência cotidiana das pessoas comuns por meio de uma simulação muito realista e, diga-se de passagem, controlada. Os caras viajam para lugares, geralmente fora dos Estados Unidos, onde possam desfrutar anonimamente funções monótonas e subalternas durante um mês inteiro. Pode ser numa fábrica na Ásia ou numa central de telemarketing na América Latina, por exemplo. Fiquei sabendo da história de um certo Andrew Merritt, jovem milionário do setor de tecnologia, que passou dezessete dias trabalhando como zelador num edifício na cidade de Pretória na África do Sul. Havia contratado vinte e cinco dias, mas quando achou que já era o suficiente, que já havia descansado de sua vida de responsabilidades e de estresse, ligou para a agência e, em meia hora, um carro estava o esperando na porta do edifício.  

domingo, 31 de dezembro de 2023

 

e se não existe início nem fim

piso com força pra marcar toda pedra

e recordar a medida do fôlego

 

e se existe fim mas não início

tento segurar na ponta dos dedos

o nome soprado por ninguém 

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

 

nota para um poema que não pode ser escrito:

a hermenêutica do corpo realiza-se

na fisicalidade da língua

quinta-feira, 1 de junho de 2023

 

não há nada a ser perdoado

entre os mortos e os sobreviventes

a não ser o pacto de continuar

 

quando volto os olhos para trás

a imagem trêmula que une ambos

é como a visão de um futuro abortado

 

e meu corpo desaparece aos poucos

e quase já não passa de uma lembrança

de uma promessa quebrada