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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026



ainda é meio cedo 
amor 
por isso te peço 
não repares 
na cadeira que gagueja 
no pensamento puído 
e na voz quebrada

o mês recém passou da metade 
e já preciso economizar nas palavras

vê bem 
lá no pátio a galinha se empoleira 
na imagem que não consegue sustentar 
nem uma frase cafona 

então serei o mais breve possível 
para que não percas teu ônibus 

repara
como os vivos estão sempre atrasados 
esticando as rugas contra 
os segundos

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025


bato na porta
eu mesmo abro
do outro lado não tem ninguém

 
dobro correndo a esquina
será que vou ser descoberto
      pelado
numa quarta-feira à tarde? 


onde foi parar o poema mesmo?
olha  


fica sabendo
que nem tudo é feito para
ser lido em voz alta 


guarda bem este segredo
que compartilho contigo
cheio de vergonha

 

 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025


que animal restou no fim
quando nada mais te lembrava o lar 


aquele que te acompanhava
              e cavava silêncio 


porque entendia o gesto
de deixar estar –
caminho que se revela na hora da morte 


a ele
a ti – na hora da vida
pelo portão aberto

terça-feira, 17 de junho de 2025

a vida empoça na tarde de chuva
rasuro aquilo que queria até
o próximo
risco 

não existe nada aqui
apenas o universo inteiro
enquanto escurece lembro do
futuro do pretérito 

tentativa e erro
erro 

             erro
a tarde que submerge entre palavras
                  em negrito
arrastadas pelo itálico
estancadas pelo grifo 

naufrago a ideia inicial
me debato feiamente
até apreender a afundar  

a idade de cada verbo se conta
pelo número de tentativas
frustradas

segunda-feira, 16 de junho de 2025

minha caneta lenta

no papel onde respira

            ou tenta

ouvir a insônia das mães

que cavam e bufam

arriscando-se

        ao empilhar

                      pedras

 

não dura nada

nada dura

não

 

nem o céu lento

que queima como pedra derretida

as crianças esculpidas

na poeira de cimento

 

a insônia

das mães é lenta

– ao contrário

         das pedras

nada dura

não

 


 

terça-feira, 10 de junho de 2025

 

como é mesmo o nome

daquele lugar que não visitei?

aquele onde sem sair da cama

fiquei dias intoxicado com  palavras

que  não entendia

 

eles tinham um gesto

tocando a ponta dos dedos

para expressar felicidade

cremavam os mortos

e com as cinzas

enfeitavam a entrada das casas

diziam que os gatos eram

muito parecidos com um engano

 

que a fumaça era a imaginação das coisas

e que as nuvens eram os sonhos não realizados

 

lá, me deram um nome impronunciável

que significava luz numa tarde de preguiça

 

nunca haviam pensado em forma de alfabeto

por isso desenhavam as tristezas na areia da praia

para serem apagadas

 

e cada vez que o sol vai embora

ainda sinto o sopro do tempo que passei

entre eles

 

quinta-feira, 1 de junho de 2023

 

não há nada a ser perdoado

entre os mortos e os sobreviventes

a não ser o pacto de continuar

 

quando volto os olhos para trás

a imagem trêmula que une ambos

é como a visão de um futuro abortado

 

e meu corpo desaparece aos poucos

e quase já não passa de uma lembrança

de uma promessa quebrada

sábado, 30 de abril de 2022

 
nas tábuas em formato de calma
rugas emprestam forma
à prata ainda crua
 
prego de prata
golpeado por um martelo de
ruga
 
na prata calma a forma nua
enruga o martelo cru
de ferrugem
 
prego de prata
golpeado por um martelo de
calma
 
com o aço dos dentes
mordo a prata em formato de ruga
e empresto minha língua
 
prego de prata
golpeado por um martelo de
dentes

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 27 de abril de 2022

 

tu
 
trança uma mão dentro da outra
e cai devagar
pronunciando cada sílaba
de clareza atordoante
no fundo dos olhos
 
os campos elísios
sussurram aquele nome
com que fui inflamado
quando ainda se acreditava
em coisas como o ardor
 
tu
 
anda sobre a minha carne
e descansa aonde não pude chegar
já é tarde para revolver a terra
em busca do magma 
planta o sal que cuspi
e descansa

sábado, 16 de abril de 2022

 

dos olhos cuspidos às raízes
sem murmúrio ou moral  
ramos e hálito rasgam a terra
 
crianças cavam com as próteses dos dentes
mastigando as pedras até perder a inocência
aprendendo o idioma do chão
e a sonhar como os cegos
 
a pilhagem foi interrompida nos berços
nada de pólvora sob a língua nem açúcar
nem mesmo permissão para explorar
o subsolo da Pérsia
 
mesmo que nos pomares as peras apodreçam
por causa dos dentes de leite
e deficiência de cálcio
 
nos olhos persas queima pólvora
e próteses são sonhadas sem permissão
e olhos germinam no lugar das peras