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terça-feira, 2 de julho de 2019





Um poema e seu poeta
– olhados de perto –
são tão pequenininhos
da linhagem do tardígrado
tão longevos e inúteis
derradeiras testemunhas
de um mundo que
desaparece continuamente
um bilhete
aos improváveis remanescentes
sem remetente ou corpo distinguíveis
a quem tiver ou olhos ou ouvidos
ou às ruínas e aos minúsculos roedores
dizem o inédito do que já foi dito
                                   e dizem novamente
– para que possa ser esquecido –
o infinito que só pode ser descrito
através do ínfimo e suas variáveis
atirado ao aeon dos trabalhadores
da palavra em seu cansaço
na prostração da tarefa impossível
de minerar o buraco deixado pelo silêncio
tentam extrair sua pulsação
sem sacrificarem as próprias vidas
antes que o liame se rompa
e seus corpos já não sejam passíveis
de escrita ou suspensão
ou se desfiem continuamente


quarta-feira, 19 de junho de 2019







Nós – que comemos
copulamos e morremos
sem restarem vestígios ou
provas concretas de nossa existência
as pequenas e as grandes mentiras
operadas zelosamente como
as fugazes e pequenas alegrias
uma beatitude de pedra descarnada
fenda por onde caímos continuamente
entre os feriados prolongados
as férias e o sonho da casa própria
diferenciamo-nos pelos dentes
pela profundidade de nossas frustrações
ou pela competência em
administrar nossa desilusão
alguma dignidade revela-se na
capacidade de rir
a maioria – no entanto
é pequena e frágil
apesar da evolução
dos antibióticos e dos antidepressivos
a extinção ainda ronda
quem são esses que rastejam
de forma tão parecida com a nossa
falam um idioma familiar
mas nem por isso capazes
de se fazer compreender
e fogem aterrorizados
com nosso grito
de gozo ou desespero
e se somos nós esses
covardes e impotentes
no espelho total do mundo
que tudo deforma
quem é o homem que morre
a caminho do trabalho
que é desligado banalmente
maço de cigarro inconcluso
dentes inéditos
sem atrapalhar o tráfego
sem alterar a pressa
ou a velocidade infinita