sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

 Tudo encoberto por uma fina camada de pó. Os carros largados com as portas abertas no meio da rua, os arbustos secos e as carcaças de cachorro pareciam se esfarelar quando o vento soprava. De muito longe era possível ver a nuvem de poeira avermelhada e meio fosforescente se levantar e decompor tudo em grãos de algo que lembrava um sonho. Tudo muito bonito, mas também terrivelmente fatal.  

sábado, 30 de abril de 2022

 
nas tábuas em formato de calma
rugas emprestam forma
à prata ainda crua
 
prego de prata
golpeado por um martelo de
ruga
 
na prata calma a forma nua
enruga o martelo cru
de ferrugem
 
prego de prata
golpeado por um martelo de
calma
 
com o aço dos dentes
mordo a prata em formato de ruga
e empresto minha língua
 
prego de prata
golpeado por um martelo de
dentes

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 27 de abril de 2022

 

tu
 
trança uma mão dentro da outra
e cai devagar
pronunciando cada sílaba
de clareza atordoante
no fundo dos olhos
 
os campos elísios
sussurram aquele nome
com que fui inflamado
quando ainda se acreditava
em coisas como o ardor
 
tu
 
anda sobre a minha carne
e descansa aonde não pude chegar
já é tarde para revolver a terra
em busca do magma 
planta o sal que cuspi
e descansa

sábado, 16 de abril de 2022

 

dos olhos cuspidos às raízes
sem murmúrio ou moral  
ramos e hálito rasgam a terra
 
crianças cavam com as próteses dos dentes
mastigando as pedras até perder a inocência
aprendendo o idioma do chão
e a sonhar como os cegos
 
a pilhagem foi interrompida nos berços
nada de pólvora sob a língua nem açúcar
nem mesmo permissão para explorar
o subsolo da Pérsia
 
mesmo que nos pomares as peras apodreçam
por causa dos dentes de leite
e deficiência de cálcio
 
nos olhos persas queima pólvora
e próteses são sonhadas sem permissão
e olhos germinam no lugar das peras

sábado, 2 de abril de 2022

um passo em qualquer direção
e já não estou mais preso aqui
neste aquário
 
os primeiros raios de sol
se transformam em nimbo
através do limo seco
 
levanto entorno do espectro 
holofotes e marretas noturnos  
 
amparo a frágil dicção
e na mão ficou o peso assim
necessário
 
aos reiterados anzóis
perfurando a tinta
das marés demasiado cedo
 
envolto em gordura e feltro
o coiote abre clareiras no uivo
 
pela última vez
outra vez

 

 

 


quarta-feira, 16 de março de 2022

corro
se adiante o
horror de outro dia
absolutamen-
te banal
 
encobre artérias
para onde se desvia
a visão obstruída
 
decomponho
em compasso
         Teu lugar
empilho pedregulhos
na amnésia
 
arranhando as feridas do fantasma
através do qual o coágulo reluz
 
Tu
à distância
nem pisa em
minha sombra

quinta-feira, 10 de março de 2022

 
e se fosse um corpo
se lançando contra a resistência
da película entre os seres
e a faticidade
dos dentes
ar-
      reganhados
 
partida perdida
– ainda não ser
mesmo já sendo
mesmo já se indo
 
estalo os dedos e chamo o real
como um animal de estimação
sim – eu sei da possibilidade
de ser devorado
 
e da violência cromática
quando rasga a retina
até a nuca
 
 

domingo, 13 de fevereiro de 2022

 

poças pelo caminho
e os pés encharcados em
espaço-tempo 
sonífero como a querosene
espalhada ao redor da casa
 
à distância
um último fósforo brilha
na fúria que impede o incêndio
entre os dedos
           – sua medida

 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

 

borrão onde uma vez
existiu rosto e olhos de vapor
e a tontura diante da transfusão
nos objetos inanimados
 
                      sobrevida
 
pra onde escorre esse vozerio
quando cravo as unhas nos escombros
entre a iluminação da criança
e o adulto que se inclina
 
um corpo perde o equilíbrio
tentando se projetar
adiante da acumulação
adoecido de imaginar
 
espaço escavado entre
inércia & peso
que pressionam
as têmporas  
 
 
 

domingo, 26 de dezembro de 2021

 

meditação sobre a extensão
e sobre a fratura
do signo
 
marcas de unhas nas pedras
e cheiro das vozes
se decompondo:
 
falo dos cardumes correnteza acima
de armadilhas
com folhas e rasuras
e uma criança meio louca
de cabelos brancos
pele enrugada e
rancor
 
falo da meditação
sob a parede sem reboco
e de coisas que já nascem
                   exaustas
e giram na perturbação
de um centro vazio
 
falo de um mundo sem espessura
quando olho nos cacos
de água