se adiante o
horror de outro dia
absolutamen-
te banal
para onde se desvia
a visão obstruída
em compasso
Teu lugar
empilho pedregulhos
na amnésia
através do qual o coágulo reluz
à distância
nem pisa em
minha sombra
São três e cinquenta e sete da madrugada de uma noite agradável de primavera. Quase todos estão em suas casas dormindo. Numa pequena cidade mais ao sul do Brasil, entretanto, um sujeito chamado Rodrigo está parado sobre a ponte que cruza a fronteira entre dois municípios. Ele escora sua pélvis na mureta, inclina levemente o corpo para frente e observa a água escura se debater com violência contras as colunas que sustentam a estrutura. Ora dobra o corpo para trás e observa o céu noturno, ora se projeta em direção ao vazio entre a ponte e o rio como se desejasse também ser água. Sua feição inspira preocupação, uma vez que seus olhos refletem uma tristeza difícil de descrever.
O quê? Não, não. Tu tá completamente enganado! Meus olhos sempre foram assim. Minha mãe sempre enche meu saco por causa da minha cara, dizendo que tô sempre triste. Mas não tenho culpa é a única cara que eu tenho. Ainda mais depois que eu fumo um. Bah! Daí sim... É que eu não consigo me concentrar em nada. Minha cabeça é um turbilhão que arrasta qualquer possibilidade de um pensamento coordenado que seja. Sou vítima do meu próprio pensamento, que são muitos, que parecem não ser meus. Porque não sei se isso acontece contigo, mas eu sou comandado, quase sempre, por um tipo de vontade alheia a mim. Como um tipo de instinto. Só que mais cerebral. Não sei explicar muito bem. Por isso eu gosto de sair durante a madrugada, quando as ruas tão vazias e todo mundo tá dormindo. Nenhum carro, nenhum barulho. Até parece que nessas horas consigo retomar minimamente o controle. Além do mais, tu já parou pra prestar atenção no canto dos sabias de madrugada. Eu li em algum lugar que eles também preferem esse horário por causa do silêncio. Principalmente na cidade. Imagina que tu seja um sabiá e queira te comunicar ou atrair uma fêmea pra chocar uns ovinhos, constituir uma família, ser um passarinho considerado de bem etc. Durante o dia, com toda aquela barulheira, isso se torna impossível. Tá! Não sei se é impossível, mas a operação toda será no mínimo prejudicada. Então eu saio, observo as estrelas e escuto os sabiás. Só isso. Daí consigo me centrar em mim mesmo um pouco mais.
Ok, ok! Então talvez devêssemos começar esta história novamente. Deixe-me trabalhar um pouco melhor neste início... São quatro e três da madrugada de uma noite de primavera com seus sons característicos. Enquanto a maioria das pessoas está em casa desfrutando de uma reparadora noite de sono, Rodrigo procura seu momento de paz ao acompanhar o canto dos sabiás que povoam a cidade onde vive. Os pássaros aproveitam o silêncio, que só é possível à noite, para exercitar suas habilidades sociais. O jovem, por sua vez, talvez não esteja inserido numa trama de relações tão intensas quanto à dos animais de que tanto gosta. Como ficaremos sabendo adiante, ao que tudo indica, ele não consegue nem mesmo estabelecer um contato mais íntimo consigo mesmo. Trata-se de alguém que persegue sua existência através de procedimentos pouco precisos – poderíamos chamá-los, sem medo, de experimentais. Com todo o risco envolvido, já que o perigo que o espreita, ao modelar a si sem maiores precauções, é a autodestruição.
Piorou. Pra começo de conversa, quem te disse que meu nome é Rodrigo? Passou longe. Eu me chamo Rolinstons. É isso mesmo que tu ouviu. Deixa eu te contar ma versão resumida do que levou meu pai a me dar esse nome. Ele estava lá, no começo dos anos oitenta, no interior do Rio Grande do Sul, levando a vidinha tranquila dele, trabalhando como mestre de obras etc. Meu pai, que ainda está vivo, graças a Deus, se chama Venceslau. Então estava lá o seu Venceslau – o jovem Venceslau que naquela época, por ser jovem, era chamado apenas de Venceslau, ou Vicente para os mais chegados – trabalhando duramente dia após dia pra conseguir sustentar a família. Nessa época eu ainda não existia. A família contava apenas com o Vicente e a Janice, a mulher dele, minha mãe no caso. Naquele tempo ainda não. O seu Venceslau, que ainda não era seu, mas chamado por todos de Vicente, trabalhava com seu melhor amigo e irmão da Janice – minha mãe, o que viria a ser apenas um tempo depois. O melhor amigo e cunhado se chamava Juca, José Carlos na verdade, porém todos chamavam ele de Juca. Ele, o Juca, era apaixonado por rock. Mesmo com todas as dificuldades em conseguir os discos das bandas que admirava, ele era um fervoroso entusiasta do estilo musical. Muita gente achava que ele não batia muito bem da cacholeta, porque ele era tipo um extraterrestre-roceiro numa zona rural perdida nos cafundós do sul do Brasil. Tinha o corpo coberto por umas tatuagens toscas que ele mesmo fez usando agulha de costura e tinta de caneta esferográfica. Então os desenhos, que já não eram lá essas coisas, com o tempo iam se deformando ainda mais e ganhando uma cor meio esverdeada. Era um sujeito magricelo, por isso aqueles braços e pernas finas pareciam os galhos de uma árvore coberta de musgo ou cipós. Ainda mais que, pra completar, ele tinha uns cabelos meio compridos desgrenhados – ou pelo menos mais compridos do que os homens daquele lugar costumavam usar naquela época. Cabelos cortados no estilo mullet e meio aloirados. Algo entre Chitãozinho e Xororó e Mick Jagger. Esse cara, o Juca, apesar de todas as dificuldades que pode enfrentar um roqueiro num lugar assim, tão afastado dos centros urbanos, se mantinha partidário da causa roqueira. Por sorte ele tinha um amigo, que morava em Porto Alegre, com quem trocava cartas regularmente. Esse amigo, sempre que podia, envia itens diversos pelo correio, pôsteres, revistas etc. E, quando tinha alguma novidade musical, ainda gravava umas fitinhas cassetes dos discos adquiridos. A formação musical do Juca era toda ela baseada nessas fitas, que ele passava o dia inteiro escutando na obra. Não desgrudava nunca do radião toca-fitas alimentado por seis pilhas grandes. As pilhas eram caras, porém o amor do Juca pelo rock era maior. Um grupo, entre todos, era seu preferido: The Rolling Stones. O cunhado, meu pai no caso, odiava e tinha de aguentar o dia inteiro aquela música que considerava uma barulheira sem sentido. Meu pai perguntava ao cunhado: Como tu sabe o que eles tão dizendo? E se tiverem te mandando à merda e tu nem sabe? Juca não dava bola. Era apenas mais um que não entendia seu estilo de vida. Entretanto ele respondia: Tu também não entende o canto dos passarinhos, o que tão falando, e nem por isso deixa de gostar deles. Questão de gosto. Os Rolinstons são apenas um pouco mais barulhentos. Pra mim, esse pessoal do estrangeiro pode ser considerado uns bicho estranho. Não somos todos uns bicho de Deus? Dizia ele. Meu pai acabava concordando. Até porque se tratava do seu melhor amigo, cunhado, e um baita de um servente de obras. Não tinha ninguém que trabalhasse tão pesado quanto ele. Por isso sempre acabava chegando à conclusão de que aguentar os Stones nem era um sacrifício grande assim. Mas a vida dá umas voltas inesperadas. Numa tarde de verão, batendo aquele sol desesperador, os dois estavam trabalhando numa obra daquelas grandes. Construindo uma casa do zero sozinhos. Porque dava um pouco mais de dinheiro. É uma conta que todo mundo entende: quanto menos gente pra dividir a grana, sobra mais pra cada um. Pois bem, estavam os dois debaixo daquele sol, virando massa, carregando tijolos e sacos de cimento – trabalho pesado mesmo –, quando o Juca disse, assim meio “en passant”, não estar se sentindo muito bem. O que não foi levado muito a sério pelos dois. Não sei se tu sabe, mas nesse meio os caras querem sempre dar uma de machões, por isso costumam não dar muita atenção aos sinais emitidos pelo corpo tentando dizer que alguma coisa está errada. Não costumam parar o que estão fazendo. E com eles não era diferente. Lá pelas duas da tarde, segundo meu pai, o Juca sentiu uma pontada muito forte no peito, a ponto de não conseguir continuar o trabalho. Pediu licença e se sentou debaixo duma sombra, em cima de uma pilha de sacos de cimento. Meu pai perguntou se ele precisava de alguma coisa, se queria dar um pulinho até o hospital. O Juca respondeu que não precisava, que era apenas um mal-estar passageiro e que já já estaria melhor. Só precisava parar um pouquinho, tomar uma água e descansar uns minutinhos. Falou ainda que era bem provável que fosse apenas um efeito do calor e de todo o sol que tinha pegado na cabeça. Permaneceu uns minutinhos sentado. Em algum momento em que meu pai, que continuou trabalhando, não estava olhando, O Juca se deitou, fechou os olhos e não abriu mais. Morreu aos trinta e dois anos de enfarto. Meu pai nunca superou o trágico acontecimento. Passou o resto de sua vida se culpando por não ter insistido um pouco mais em levar o cunhado ao hospital ou por não ter o arrastado à força mesmo. Bem, isso explica um pouco a origem do meu nome. Obviamente eu poderia ter me chamado José Carlos ou Juca, porém meu pai achou melhor que fosse Rolinstons.
Então, agora a par desses detalhes, inicio mais uma vez... São cinco e treze da manhã. As estrelas já perderam quase todo seu brilho, apenas algumas, mais insistentes, ainda permanecem debilmente dependuradas no céu. Um aumento no movimento dos carros e dos ônibus já pode ser notado apesar de ainda não ser intenso. Algumas pessoas iniciam o dia muito cedo, enquanto as outras ainda aproveitam os últimos instantes na cama. Existe uma parte, no entanto, que costuma virar as noites, invertendo a ordem natural da vigília e do sono. É provável que esse seja o caso do rapaz parado no centro da pequena ponte que une duas cidades num ponto localizado muito ao sul do Brasil. Ele sustenta o peso do corpo apoiado no parapeito e se inclina para frente. Alguém que passasse naquele momento poderia achar que ele pretende se jogar nas águas barrentas do rio. Entretanto não parece ser essa sua motivação, pois, alguns segundos depois, ele realiza um movimento inverso, flexionando seu corpo para trás, agora como se quisesse se jogar de costas sobre algum veículo que por acaso estivesse passando. Bastam alguns minutos de observação, contudo, para percebermos que ele, ao repetir continuamente tais movimentos, está interessado muito mais em contemplar o céu e a água de maneira revezada. Um automóvel atravessa em disparada a ponte no momento em que o rapaz inclina o corpo em direção à pista. Por pouco, sua cabeça não é atingida. Ele se recompõe, um tanto atordoado. Ao longe escuta o rádio do carro a todo volume: “I can't get no, oh no no no”.
O silêncio era completo. A única coisa que poderia se aproximar de algo como uma sonoridade eram as batidas de seu próprio coração. Em alguns momentos, quando prestava bastante atenção, ela conseguia ouvir a circulação do sangue dentro de suas veias e vasos. Tampouco os propulsores da cápsula faziam qualquer ruído. Sabia que estava em movimento apenas quando olhava através da cúpula dianteira a imensidão escura, salpicada de pontos brilhantes que muito lentamente iam mudando de posição. O movimento era mais perceptível quando se aproximava das amplas janelas na parte posterior do veículo espacial. Por meio delas conseguia observar o gigantesco planeta diminuir de maneira bastante evidente em comparação com os outros pontos de referência. Seus pés, em alguns momentos, perdiam o contanto com o chão. Ela então fechava os olhos e lembrava-se da deliciosa sensação de habitar um corpo sem peso, de se deixar flutuar como se fizesse uso de uma consciência sem massa, de pura circulação entre uma ideia e outra, um devaneio e outro. E se permitia ficar assim por alguns segundos. Quando abria os olhos era tomada pela melancolia emitida pelo planeta azul se distanciando. O azul mais lindo que se lembrava de já ter visto, intercalado por flocos brancos e vaporosos, a esfera era ainda circundada por um tipo de aura – a atmosfera responsável pela vida durante milhões de anos.
Um livro passa flutuando ao lado de seu rosto. As folhas entreabertas ondulam na falta de gravidade como se tivessem ensaiado antecipada uma coreografia a ser posta em prática na quietude dos momentos de despedida. As frases estão impressas numa letra desenhada com um capricho quase escolar. Algumas páginas trazem ilustradas cenas de uma vida deixada pra trás. Três crianças, duas meninas e um menino, usando roupas de banho listradas, correm por areias praianas, acompanhadas por um cachorrinho de bigodes e pelo ouriçado, ao fundo um mar com ondas calmas. Acima dele alguns pássaros marítimos fazem acrobacias. Um pouco mais distantes, vestindo roupas leves e claras, um casal está sentado sobre a toalha – ou algum outro tipo de tecido – disposta sobre a areia. O guarda-sol inclinado projeta sombra até os dois, sua estampa é quase igual à das roupas das crianças. Todos os mamíferos ilustrados, entretanto, cobrem o rosto com um tipo de máscara, equipada com um visor transparente e filtros de ar nas laterais.
Madalena nada, num tipo de mergulho entre os espaços vazios da cápsula, até encontrar o livro e segurá-lo entre as mãos. Posiciona-se horizontalmente e toma impulso utilizando a força das pernas apoiadas contra a parede. Vai até a central de controle, onde existem dois assentos, senta-se num deles e se fixa por meio de um sinto de segurança que forma um xis em seu peito e que também se conecta a sua cintura. Solta um longo suspiro. Sua expressão parece cansada. Abre o livro e inicia sua leitura, articulando com clareza cada palavra como se estivesse lendo para alguém:
CENA VII
Uma mulher e um homem entram em cena conversando no que parece ser a sala de um apartamento. O teletransmissor ligado, com o som quase inaudível, flutua entre eles e acompanha seus deslocamentos pelo recinto. Ele deixa transparecer certo ar de preocupação enquanto ela, de costas para a plateia o tempo todo, expressa as nuances de seu humor por meio das modulações da voz.
ELA
Não pode ser verdade! Por que o seria justo agora? Desde que me conheço por gente, sempre que esse assunto vem à tona é de forma alarmista (pausa). Por que desta vez as previsões iriam se concretizar?
ELE
(Andando olhando para baixo) Não sei não. É que agora os sinais estão se multiplicando como uma espécie de confirmação da tragédia sempre iminente e, ao mesmo tempo, sempre desacreditada.
ELA
Calma! Não devemos tomar nenhuma decisão precipitada! (Pausa um pouco mais longa como se estivesse procurando as palavras) Vamos levando as coisas do jeito que podemos. Até porque não há nada que possamos fazer para resolver o problema, tampouco existe qualquer jeito de fugir de suas consequências, caso elas se confirmem.
ELE
Tenho inveja de seu sangue frio (pausa). Definitivamente, eu não consigo encarar essa situação de forma, assim, tão racional (sorrindo de maneira meio perturbada).
ELA
(Aproximando-se do homem e o envolvendo num abraço) Estou aqui pra lhe ajudar no que for preciso, querido! Vamos levando as coisas, na medida do possível, sem pânico. Mantendo nosso dia a dia sem muitas alterações. Certeza, certeza mesmo, não temos de nada, então que tal não sofrermos tanto por algo que, no fundo, talvez não passe de uma probabilidade distante.
ELE
Acho que você tem razão. Quase sempre tem, né?!
ELA
Podemos, por exemplo, continuar com os preparativos da nossa viagem. O que você acha?
ELE
(Como se estivesse mais aliviado) Acho uma boa ideia. Aquela mala roxa...
Os dedos de Madalena não conseguem aguentar o calor das páginas do livro. Ela o solta e observa flutuar enquanto suas folhas iniciam um lento processo de combustão, quase em câmera lenta. Um clarão invade a espaçonave como se tivesse sido desencadeado pelo livro. Mas na verdade não. Rapidamente ela percebe que a origem da luz é exterior ao veículo. Mesmo com bastante dificuldade em conseguir ver algo, por causa da claridade ofuscante, Madalena se aproxima da janela traseira e é tomada pelo horror. Não que ela não tivesse consciência do que estava prestes a acontecer. No entanto a visão da realidade, e sua confirmação, pode em alguns momentos tomar contornos perturbadores. A grande bola, antes azul, estava sendo percorrida por gigantescas rachaduras, partes de sua crosta estavam se desprendendo e se desfazendo em milhões de pedaços de rocha e poeira de uma cor que se confundia com a dos confins da galáxia. O núcleo do planeta começava a eclodir, disputando espaço com a matéria escura do universo, transformando tudo ao seu redor em pura luz.
Como tem acontecido, toda noite no último mês, hoje mais uma vez, em determinada hora da madrugada, através da parede fina que divide os apartamentos, começo a ouvir meu vizinho arrastando móveis. Ou pelo menos emitir sons do que parece ser um arrastar de mesas, camas ou sofás. Tenho de acordar às seis horas para trabalhar, já são três e vinte e cinco e ainda não consegui pregar o olho. Ou melhor, como na maioria das vezes em que o cara resolve circular ruidosamente dentro do seu apartamento, atravesso a noite num estado de liminaridade, que não pode ser considerado nem de sono nem de vigília. Sei lá, um tipo de sonho acordado, como se a realidade estivesse se dissolvendo num tipo de bruma ou um véu, muito fino, me impedisse de tocar nas coisas de fato. Depois passo o dia me arrastando, cansado. O que faz com que as horas do dia pareçam a continuidade do sonho da noite anterior. Zonzeira total. Por isso quando amanhece acabo sempre me esquecendo de ir falar com ele, e a coisa se repete noite após noite.
As consequências das noites maldormidas, entretanto, são muito concretas. Outro dia peguei o ônibus errado quando ia para o trabalho. Só me dei conta da burrada quando ele dobrou numa rua estranha. Mas já era tarde demais. Até eu conseguir pegar a condução correta e retomar a rota, já havia se passado mais de uma hora. Consequência: acabei chegando quase ao meio dia e levando aquele esporro do meu supervisor. Até acordei um pouco – momentaneamente. Não demorou muito pra eu voltar a zanzar feito um zumbi pelos corredores da firma. Os dias confusos se amontoam. E, quando volto pra casa, as coisas não têm sido melhores.
Ainda não sei o nome o nome do meu vizinho. Nunca nem cruzei com ele pelos corredores, na verdade. Na real, eu pouco falo ou mantenho algum contato com ele ou com qualquer outro morador do meu prédio. Saio pela manhã, bem cedo, passo o dia todo fora e só volto pra casa à noite. Não tenho interesse em fazer amizade com ninguém. O que eu queria era pelo menos conseguir ter a porra de uma noite de sono depois de um dia cansativo de trabalho. Em geral um dia de merda – tendo de bater as metas inalcançáveis impostas pelos psicopatas do setor administrativo, que não descolam aquelas bundonas gordas das cadeiras o dia inteiro enquanto corremos de um lado para o outro, feito baratas tontas. Mais tontas ainda por se contentarem com as migalhas que nos fazem correr. Ok, tudo bem, quanto a isso eu até já estou acostumado, já desenvolvi uma carapaça, tipo a de uma barata mesmo, que é a que me convém. O que tem me tirado do sério, mais do que de costume, é chegar na minha casa e não conseguir descansar direito por causa de um sujeito que nem conheço, porque ele resolve praticar um Feng Shui satânico a noite inteira, noite após noite. Ah! Vá pra puta que pariu!
Agora são quatro e quarenta sete. O arrastar de móveis continua num intervalo mais ou menos regular de tempo. O problema é que quando parece que acabou, e estou quase pegando no sono, recomeça novamente, me arrastando pra estaca zero. Semana passada, num dia em que eu estava de folga, e a maioria dos outros moradores do condomínio estava trabalhando, até tentei dar uma bisbilhotada pela janela do apartamento do arrasta móveis. Achei tudo muito esquisito. Tinha uma cortina meio aberta numa das janelas, era razoavelmente alta, mas subi numa lixeira e consegui dar uma espiadinha lá dentro. Pelo menos o cômodo que consegui ver parecia vazio, sem nenhuma mobília, nenhum obejeto. Até falei com o zelador e perguntei se ele conhecia o morador do duzentos e cinco. Só que quando ele me disse que, pelo menos pelo que ele sabia, não havia nenhum morador em tal apartamento, fiquei sem entender nada. Tenho certeza de que tem alguém ali. Senão não estaria até agora acordado.
Continuo me virando na cama, de um lado pro outro. Talvez a irritação e a falta de sono estejam me deixando louco, não sei não, porque posso jurar que agora também comecei a escutar um barulho no andar de cima. Um negócio irritante parecido com alguém mexendo uma cadeira, tipo quando a gente tenta se acomodar na mesa. As coisas agora se tornaram um pouquinho mais malignas, beirando o sadismo mesmo. Alguém arrasta alguma coisa no apartamento ao lado, tento pensar em outra coisa – contar carneirinhos, jogar uma partida de xadrez mental, tapar a cabeça com o travesseiro, perna pra dentro do edredom, perna pra fora, copo d’água, chazinho de camomila, leitura de um livro bem chato, ida ao banheiro –, daí quando estou quase apagando, começa o arrastar no andar de cima, que agora tenho certeza de que tá acontecendo.
Cinco e vinte e um! A escuridão noturna – boa pra dormir, caso não se seja interrompido – já começa a perder força. Nem sei se realmente não consegui dormir ou se não estou sonhando que não consigo dormir. Pode ser que daqui a pouco eu acorde revigorado e descubra que na verdade ninguém mora encostado à minha parede ou acima da cabeça. Seria ótimo acordar numa casa. Melhor ainda, numa fazendo, ser despertado pelo mugido de uma vaga ou pelo cacarejo das galinhas. Vou ficar bem quietinho aqui e torcer para que esteja sonhando. Quer dizer, sonhando não, sendo atormentado por um pesadelo! Só posso estar dentro de um pesadelo que só acaba com os primeiros raios de sol. Não pode ser! Juro que estou ouvindo mais um arrastar de móveis, agora um pouco mais longínquo. Parece que estou em meio a um concerto de música atonal regido pelo próprio Lúcifer. Ou meus vizinhos devem ser meio que uns Schoenbergs de uma empresa de mudanças que não termina o trabalho nunca. Mudança em looping. Como dormir com um him, rom, guiz, tac, tac, a noite inteira, que encerra aqui e começa lá, como se estivessem respondendo uns aos outros?!
Enfim, após mais uma noite de filme de terror, saio de meu apartamento para trabalhar. Desço pelas escadas mesmo, como costumo fazer, já que moro no segundo andar. Antes de chegar à rua, encontro o zelador, que mora no mesmo prédio, ele está lendo o jornal, com uma aparência jovial e descansada, de quem teve uma ótima noite de sono. Então pergunto a ele sobre a noite anterior, se ele também ouviu a barulheira. Pra minha surpresa ele me responde, com um sorriso no rosto e certa desconfiança, dizendo que não escutou nada, que dormiu como um bebê e que inclusive fazia muito tempo que não dormia tão bem. Ainda reiterou o que tinha me dito alguns dias antes. Segundo ele, meu apartamento estava relativamente isolado, uma vez que não havia outros moradores no meu andar, nem no de cima. Por isso era improvável que o “arrastar de móveis” (nesta parte, em especial, ele esboçou um irritante sorrisinho no canto da boca), se é que aconteceu mesmo, tenha origem na casa dos vizinhos – que, segundo ele, não tenho.
Agora eu mesmo já estou sentindo um pouco de vergonha. Pode ser coisa da minha cabeça. E eu aqui importunando os vizinhos. Estes, sim, que existem. Quer dizer, não sei, eu acho. O mais provável é que eu esteja sendo vítima de algum tipo de perturbação mental, de alguma coisa que se manifesta com mais intensidade à noite, alguma variante do terror noturno, aquele quando o sujeito está acordado, mas não consegue se mexer. Já vi uma reportagem sobre isso na televisão. Hum! Verdade! Acho que pode bem ser algo do tipo.
Um pouco humilhado, sem saber muito bem onde enfiar a cara, me despeço do zelador. Evito olhar muito em seu rosto. Quando ganho a rua, dou uma última passada de vista por aquelas janelas centenas de janelas do grande bloco de apartamentos onde moro. A maioria ainda fechada naquela hora da manhã. As abertas, no entanto, que permitem que se veja o interior das habitações, exibem uma movimentação pra lá de curiosa. Grupos de pessoas transportando os móveis de um apartamento para outro, como se tivessem muita urgência, como se estivessem fugindo de alguma coisa. Alguns moradores arrastam sozinhos mesas, geladeiras e outros tipos de mobília, saem por uma porta e entram em outra. Pelo menos é o que consigo ver, pelas janelas abertas, daqui debaixo. Na do apartamento ao lado do meu, que está com a cortina puxada, consigo identificar a figura do zelador e de mais algumas pessoas que não conheço arrastando com muita violência os móveis. É a última cena a que assisto antes de subir no ônibus rumo a mais um dia de trabalho.