quinta-feira, 4 de março de 2021

 



se
Godard existisse
carregaria em sua
mão uma caneta
e escreveria
cartas
 
com uma
letra apressada
cheia de rasuras
sob um abajur
do tamanho
do sol
 
para um mundo ainda
por inventar – onde a
causalidade não teve
tempo e é apenas um
espaço curvo
 
como assinatura
e falsificação de seu nome
que desfigura sua imagem
e semelhança dispersa em
cada objeto
 
seja de carne
ou de introspecção
tudo consumado
mais do que
desaparecido
em suas mãos

luiz carlos quirino 

domingo, 28 de fevereiro de 2021

 

Béla Tarr e seus cachorros encharcados
precipitam as ruínas de um homem
inútil se ele se esconde
atrás de um muro
e a câmera o
segue
 
em
close-up
–
nada
pop
 
depois de ter perdido o sapato
embarrando as meias brancas  
num tipo de dançando
na chuva do fim
do mundo
 
deformado entre vapores
de álcool e descrença –
niilismo em agitação
 
correndo com os cachorros
numa bela tarde em que
a chuva cai

luiz carlos quirino 
 

sábado, 27 de fevereiro de 2021

 



uma língua de fogo em cada casa
e para cada mito de origem –
eternidade numa fração de segundos
sob a nostalgia do que não se mostra
 
uma casa de fogo em cada origem
e para cada mito uma língua –
tempo sego atrás da raiz noturna
fissurando o que é imperativo e nu
 
uma origem de fogo em cada língua
e para cada mito uma casa –
uma aliança de luz para cada dedo
enterrado nas pedras que brotam
 
um mito de língua em cada origem
e para cada fogo uma casa –
na chuva de um dia inesquecível
incendiando as roupas no varal


luiz carlos quirino
 
 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

 

um aeronauta despenca do segundo andar para a morte pela terceira vez. seu primeiro andar o levara a lugares inimagináveis até que perdeu o passo e se virou para o outro lado na cama. desde então teve de reaprender a flutuar – um pé de cada vez: um pé depois outro, um pé depois outro. às vezes metendo as mãos pelos pés. porque se apoiar em duas patas configuraria ser bípede [e não trípede como a maioria], essa posição tão estranha aos homens [e a algumas crianças] quanto voar o é aos aeronautas mais experimentados. como ver Deus todos os domingos na feira até se dar conta de que os domingos não existem e são exatamente iguais à segunda ou à quinta-feira. e se a feira não existe toda fruta e verdura também pode ser Deus ou aeronauta. a não ser que você [não sendo fruta ou verdura] seja homem, nuvem ou qualquer objeto mais leve que o ar.       

domingo, 21 de fevereiro de 2021

o limo colonizando
as paredes do rosto
os insetos famintos
livro adentro
 
roendo axiomas
dispostos de forma
ridícula
 
mnemotécnica
para distrair
o absurdo
 
buracos na neblina da página
numa terrível manhã invernal
em que o chacal atola as patas
nas horas e apodrece
 
e trina feito um homem
conformado
 
a ocupação dos livros é escorar portas
a condição dos vivos é rabiscar notas
 
ilegíveis ao tocar o chão
– lâmina finíssima
do lençol no varal
 

luiz carlos quirino 

 

 

 

 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

 




retomo a intervenção
dos dedos –
             nós fantasmas
sobre a ferida –
a pulsação da nervura
a ardência do real
 
persigo a imprecisão
de cada endereço
tão baixo que nem escuto
o rompimento de meus dentes
e o choque da língua
na espessura
do banal
 
esqueço a intervenção
e retorno a uma casa diferente
a cada vez
 
modulo a voz conforme
a extensão do enigma
dirigido a mim mesmo
                     no futuro
 
grão a grão
nos azulejos da boca
aberta
 
e assombrada no tempo
de água cristalina na

concha
              da mão


luiz carlos quirino
 
 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

 



é fácil transportar uma casa
através do espaço e do tempo
mais difícil é mover meu corpo
um milímetro – adestrado
à espera e ao cumprimento
da tarefa de ter fé
 
enquanto a manada afunda
o caminho barrento – afundo
minhas pálpebras no concreto
entre a parede e o ilegível
 
sob a casa que carrego
nas costas – de olhos fechados
guiado pelo rangido dos minutos
que se chocam contra portão
sem tramela
 
cuja lassidão desespera
o animal lento – de corpo pesado
do tamanho de uma casa

luiz carlos quirino 
 
 

domingo, 31 de janeiro de 2021




seguro
um ramo de luz
entre os dentes
e queimo a língua
na incandescência
das palavras
 
pronuncio
sí-la-ba por sí-la-ba
tentando impedir
que o incêndio
devore a vida
 
sub-reptícia na arqui-
tetura de cada frase
erigindo uma ponte
sobre a sombra
e o silêncio
 
caudalosos como a respiração
que cadencia minha fala
e alaga as margens
 
seguro
uma mariposa de luz
entre os dentes
e deixo a noite
carbonizada
ruir 


luiz carlos quirino
 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

 







lembrava o ruído
das nuvens se despedaçando
ou o atrito do ar na água
quando soprava a íris
de meus olhos
 
enquanto esperava
que voltasse à vida
com a hora seca no
meio de um livro
 
e o uivo
do joão-de-barro
na janela
 
tinha esquecido
a forma de meu rosto
ou o gosto dos
parafusos na língua
 
não podia voltar
sem o mapa
desenhado por
suas unhas
do lugar onde
nunca estivemos
 
chamava-se
chuvarada-em-dia-de-verão
e só agora aprendi
a pronúncia correta
 
agora que minha boca
se choca no concreto

luiz carlos quirino 
 

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

 



os olhos que sustêm a fagulha
estão gelados &
 
a arquitetura de livros eletrônicos
sobre conjecturas obscurantistas
jaz:
 
instruções para armar uma
fogueira – viagens espaciais
e cura para o quebranto
 
o rosto que recebe a navalha
está cindido &
 
pouco jovem para o século
pouco velho para nascer
 
tão frívolos
os dedos deixam rastros
ferruginosos nos azulejos
e na
 
brancura hospitalar
dentadura cerâmica
 
o corpo que degrada a paisagem
está brotando &
 
velhos fantasmas voltam
a assombrar reduzidas telas
 
[LED como espectro
ou cruzada]
 
o soturno dos dentes esconde
a extinção na fogueira
de vaidades
 
alegria pornográfica
em looping
em looping
 
o esforço que arrasta a eternidade
está rarefazendo &
 
a entonação da voz denota fragilidade
 
as mãos que sustentam o ofício
estão cansadas


luiz carlos quirino 

sábado, 16 de janeiro de 2021

 

o apito da fábrica
tenta salvar os vagabundos
dos pais de família
 
quitar o crediário
comprar mais um
pente de munição
 
enquanto sonham acordados –
apertam os parafusos da decência
 
continuamente quase hora
do almoço e ônibus lotado
e Jesus três vezes por semana  
 
& não importa quantos livros tu leias
serás sempre um fodido hereditário
 
& não importam os anjos de Leonard
Cohen numa terra arrasada
 
construí uma casinha
e esperei o pior ou à
moda Tonico & Tinoco
as simples tristezas atrás
dos silvos os Silvas  


luiz carlos quirino 
 
 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

cobiçaria o ar fresco &
a ilusão de que tudo daria certo
na queda inicial
 
se o desejo não estivesse interdito
desde o nascimento
 
[uma vez vi um guri ser esfaqueado
em frente à casa – e ele ainda andou
alguns metros antes de sumir]
 
metáfora do que persiste ou
impossibilidade metafísica
 
eu desconhecia
Spinoza e sua turma
mas suspeitava de certa união
das coisas alastradas no choque
dos afetos que às vezes nos
levam a vida
 
[tempos depois o esfaqueador
apareceu – crivado de balas –
às margens do córrego]
 
esperamos o momento
em que seremos suprimidos
num bombardeio ou perturbação
 
(de felicidade)
 
longe
os ricos gozam em seus bunkers
construídos sob os desaparecidos 


luiz carlos quirino 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

 

colchão
de navalha
lençol de sal
em que o pássaro
       descansa
do coágulo
nas asas
 
mientras hacía calor
 
sonha
com a volta do céu
e a merda
 
despencando
sobre a humanidade
hasta hacerla
apagar-se
 
e borrar
a contingência
que precede
o canto
 
tão silencioso
quanto cirúrgico
ao final

luiz carlos quirino