sexta-feira, 16 de abril de 2021

 
desarticulo meu corpo
guardado numa caixa
para que a multidão
consiga fugir
 
desta nova teologia como
enciclopédia das possibilidades
e impossibilidades do animal
que serve para matar a fome
 
transfigurando em heresia
toda estesia e em delírio
toda a visão
 
apagando as constelações  intracorpóreas
o mundo pós-corporal é a nova aventura
colonizadora
 
meu rosto agora é uma gota
de espelho incandescente
como dentes postiços
de um dragão
 
favor tocar
favor ferver    

luiz carlos quirino 

sexta-feira, 9 de abril de 2021

 

enquanto a cidade dorme
desapareço um pouco mais
quando acordo já inexisto
                            completamente
porque
cada geração tem de desenvolver
formas de suportar sua própria
catástrofe ou aprender a
dança da morte
que lhe coube
mesmo que só consiga
erguer os
           olhos para o distante
aquém de mim e de ti
se o vermelho encerra
mais um a menos
com a radicalidade do que
                      nunca termina
muito menos começa
                     como no tempo
das primeiras vidas –
agora sou apenas
assombração de mim mesmo
e tento perder a ocasião que
não possuía –
na rua os destroços
no interior uma casa
tão limpa que ninguém
se atreve a morar
 

luiz carlos quirino 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

 

uma resolução
[de existir] tão impraticável
que deslocasse o ar
como a asa de um pássaro
e só pudesse ser soprada
– nunca dita
 
sobre a mesa eu disporia o sonho
junto aos utensílios de comer
enquanto os dispositivos eletrônicos
fossem absorvidos pela janela
 
e eu – tragado pela luz que inunda
a cozinha e explode o concreto –
experimentaria o interior de cada
ponto de vista
 
a paz interior das coisas tocadas
pela alegria de não possuir corpo
e desconhecer a solidão
do que é intransponível


luiz carlos quirino 
 
 

domingo, 28 de março de 2021

 

o homem bomba dorme o sono dos justos e sonha com meus pés se ferindo nos escombros de sua obra. tento reconstruir inutilmente a cidade. estou sozinho – a não ser por aquele que dorme e me tem perambulando entre seu espírito e o nada. encontro uma flor chamuscada e a ofereço ao responsável pela destruição. ele a recusa e diz que os homens e as mulheres possuem livre-arbítrio – então sua consciência se faz tranquila como a de uma criança. que o corpo não pode ser nada mais do que o que se consegue reerguer continuamente a partir da caliça pisada e repisada pelos sobreviventes que passam sobre os viventes para se banhar no pó – argamassa do sonho e eventualmente da vigília.               

 

sábado, 20 de março de 2021

 
agora sou apenas espera
debaixo do céu – junto
ao que nunca será azul
 
duração do corpo na ideia
como                       fome
causa e efeito
           da vertigem
 
eu teria amado o silêncio
se ele não fosse apenas
a respiração condensada
no vidro da janela e o
atordoamento da falta
 
o indispensável
devorado pelo
impossível
 
desenho um nome na
transparência colocada
entre mim e o mundo
já que não tenho coragem
de pronunciá-lo em
           voz alta
 
– a imagem
é arrebatamento


luiz carlos quirino 

sábado, 13 de março de 2021

 

pés e mãos atados
na armadilha –
ventura do animal que caça
até a extinção
da corrida
 
– silencio
 
como na solidão da noite
e do concreto rígido
anterior à invenção da carícia
e do passo da andorinha
 
suspenso –   
 
arqueologia do lugar vazio
do que ainda não existe
sem ser atordoante

luiz carlos quirino

quinta-feira, 4 de março de 2021

 



se
Godard existisse
carregaria em sua
mão uma caneta
e escreveria
cartas
 
com uma
letra apressada
cheia de rasuras
sob um abajur
do tamanho
do sol
 
para um mundo ainda
por inventar – onde a
causalidade não teve
tempo e é apenas um
espaço curvo
 
como assinatura
e falsificação de seu nome
que desfigura sua imagem
e semelhança dispersa em
cada objeto
 
seja de carne
ou de introspecção
tudo consumado
mais do que
desaparecido
em suas mãos

luiz carlos quirino 

domingo, 28 de fevereiro de 2021

 

Béla Tarr e seus cachorros encharcados
precipitam as ruínas de um homem
inútil se ele se esconde
atrás de um muro
e a câmera o
segue
 
em
close-up
–
nada
pop
 
depois de ter perdido o sapato
embarrando as meias brancas  
num tipo de dançando
na chuva do fim
do mundo
 
deformado entre vapores
de álcool e descrença –
niilismo em agitação
 
correndo com os cachorros
numa bela tarde em que
a chuva cai

luiz carlos quirino 
 

sábado, 27 de fevereiro de 2021

 



uma língua de fogo em cada casa
e para cada mito de origem –
eternidade numa fração de segundos
sob a nostalgia do que não se mostra
 
uma casa de fogo em cada origem
e para cada mito uma língua –
tempo sego atrás da raiz noturna
fissurando o que é imperativo e nu
 
uma origem de fogo em cada língua
e para cada mito uma casa –
uma aliança de luz para cada dedo
enterrado nas pedras que brotam
 
um mito de língua em cada origem
e para cada fogo uma casa –
na chuva de um dia inesquecível
incendiando as roupas no varal


luiz carlos quirino
 
 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

 

um aeronauta despenca do segundo andar para a morte pela terceira vez. seu primeiro andar o levara a lugares inimagináveis até que perdeu o passo e se virou para o outro lado na cama. desde então teve de reaprender a flutuar – um pé de cada vez: um pé depois outro, um pé depois outro. às vezes metendo as mãos pelos pés. porque se apoiar em duas patas configuraria ser bípede [e não trípede como a maioria], essa posição tão estranha aos homens [e a algumas crianças] quanto voar o é aos aeronautas mais experimentados. como ver Deus todos os domingos na feira até se dar conta de que os domingos não existem e são exatamente iguais à segunda ou à quinta-feira. e se a feira não existe toda fruta e verdura também pode ser Deus ou aeronauta. a não ser que você [não sendo fruta ou verdura] seja homem, nuvem ou qualquer objeto mais leve que o ar.       

domingo, 21 de fevereiro de 2021

o limo colonizando
as paredes do rosto
os insetos famintos
livro adentro
 
roendo axiomas
dispostos de forma
ridícula
 
mnemotécnica
para distrair
o absurdo
 
buracos na neblina da página
numa terrível manhã invernal
em que o chacal atola as patas
nas horas e apodrece
 
e trina feito um homem
conformado
 
a ocupação dos livros é escorar portas
a condição dos vivos é rabiscar notas
 
ilegíveis ao tocar o chão
– lâmina finíssima
do lençol no varal
 

luiz carlos quirino 

 

 

 

 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

 




retomo a intervenção
dos dedos –
             nós fantasmas
sobre a ferida –
a pulsação da nervura
a ardência do real
 
persigo a imprecisão
de cada endereço
tão baixo que nem escuto
o rompimento de meus dentes
e o choque da língua
na espessura
do banal
 
esqueço a intervenção
e retorno a uma casa diferente
a cada vez
 
modulo a voz conforme
a extensão do enigma
dirigido a mim mesmo
                     no futuro
 
grão a grão
nos azulejos da boca
aberta
 
e assombrada no tempo
de água cristalina na

concha
              da mão


luiz carlos quirino
 
 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

 



é fácil transportar uma casa
através do espaço e do tempo
mais difícil é mover meu corpo
um milímetro – adestrado
à espera e ao cumprimento
da tarefa de ter fé
 
enquanto a manada afunda
o caminho barrento – afundo
minhas pálpebras no concreto
entre a parede e o ilegível
 
sob a casa que carrego
nas costas – de olhos fechados
guiado pelo rangido dos minutos
que se chocam contra portão
sem tramela
 
cuja lassidão desespera
o animal lento – de corpo pesado
do tamanho de uma casa

luiz carlos quirino