Parecia a cabeça de uma boneca velha, dessas que as pessoas jogam no lixo:
os cabelos louros espetados, o rosto retorcido, como se tivesse pertencido a uma
criança endiabrada. Tudo coberto por barro vermelho. Seus membros dispostos num
arranjo muito esquisito. Aliás, este pensamento sempre me ocorre até hoje: por
que quando alguém cai morto o faz sempre numa posição tão estranha? Mas naquele
tempo eu ainda não tinha visto nenhuma pessoa morta, o que aumentava ainda mais
minha perplexidade. Mal sabia que décadas depois eu também acabaria envolvido
num assassinato.
Os curiosos já começavam a se aglomerar em volta da valeta onde o corpo
da guria estava jogado, envolto por uma delicada camada branca de gelo, resultante
da geada da noite anterior, que se misturava ao vermelho barrento da terra. Ao seu
lado uma pedra bastante volumosa e pontiaguda. Poderia até dizer que a cena
apresentava certa harmonia, produzindo uma paz ao mesmo tempo perturbadora. Quando
observei com um pouco mais de atenção, pude perceber uma pequena mágoa em sua
fronte, quase escondida entre os cabelos – um coágulo rosáceo que desabrochava,
cuja cor se confundia com a do solo que a cobria.
O medonho espetáculo era-nos apresentado no exato limite que separava as
últimas construções do bairro de um enorme terreno descampado – salpicado por
alguns pontos de mato – que estava localizado quase no centro do pequeno
município metropolitano. Era o período das férias escolares do meio do ano,
então toda a gurizada se acotovelava entre os adultos para conseguir um melhor
ângulo de visão. Num pequeno bairro periférico, era preciso inventar formas de
contornar o tédio, que se alastrava como erva daninha, quando não se tinha aula
nem qualquer outra coisa para driblar a ociosidade. Os adultos desempregados e
os que realizavam alguns bicos esporádicos encontravam distração nos botecos,
sempre movimentados; as crianças, pelo menos algumas delas, ainda não o podiam.
Acho que eu tinha uns dez ou onze anos, quando a morte da guria aconteceu, e certamente
não me encontrava numa situação melhor do que a de meus vizinhos.
Minha mãe passava o dia inteiro trabalhando, como empregada doméstica, na
casa das famílias mais abastadas da região. Ela tinha seis filhos e já era
viúva aos trinta e poucos anos. Se bem que quando meu pai ainda estava vido as
coisas não eram muito melhores. Assolado por um ciúme patológico, para se
certificar de que minha mãe realmente estava onde dizia estar, ele passava os
dias rondando a frente das casas em que ela trabalhava. Obviamente sempre
estava onde havia dito que estaria. E se matava de tanto trabalhar enquanto ele
passava os dias pelos bares, bebendo, em jogatinas e arrumando mais filhos fora
do casamento. Quando meu pai morreu, antes dos quarenta anos, minha mãe pôde
descansar, pelo menos da violência que sofria diariamente de sua parte. Em
compensação, se viu sozinha com uma escadinha de filhos. Agora passávamos o dia
nos virando como podíamos. Os mais velhos trabalhavam naquilo que aparecia –
servente de obras, vendedor de picolés... –, os menores cuidavam das tarefas da
casa e dos irmãos ainda menores que eles. Já estávamos acostumados com a dureza
da vida, é bem verdade; mas, naquela época, pelo menos a morte ainda era um
fato extraordinário, espécie de contingência com que os pobres tinham de lidar,
de vez em quando, para logo em seguida, sem muita perda de tempo, seguir em
frente. A sobrevivência era mais urgente do que qualquer outra coisa. Não havia
espaço para especulações metafísicas a respeito de qualquer fato que se
afastasse da concretude, da dureza da realidade. Por isso não desperdiçávamos
muito tempo com um tema como a morte, a menos que ele se impusesse de maneira
incontornável, como no caso da guria dentro do buraco ou da morte de meu pai
que aconteceu quando eu era muito pequeno para entender ou mesmo formular algum
tipo de questionamento. De qualquer forma, ninguém teria sabido me responder,
pois vivíamos uma existência desprovida de imaginação e concretada no agora.
A Rita, o Japão e o Igor haviam passado cedo em minha casa, contaram-me
que tinham ouvido dizer que alguém encontrara uma pessoa morta, perto da
escolinha de futebol, no matinho ao lado. Obviamente estavam se dirigindo para
lá e me convidaram a me juntar a eles. Enquanto esperavam escorados no portão
de tábuas assimetrias e sem pintura, eternamente entreaberto, numa corrida,
terminei de tomar meu café da manhã, que consistia em café preto e bolinhos
fritos. Vesti o casaco mais grosso e menos desbotado que tinha, e saímos em
disparada para ver o defunto que havia aparecido unicamente para movimentar
nosso dia. Durante o trajeto, as mesmas brincadeiras de sempre, ainda um tanto
infantis, apesar de já estarmos quase todos entrando na adolescência e do
espetáculo macabro a que estávamos nos dirigindo. “Meu tio disse que a guria
foi estuprada e morta, naquele matinho, e que o cachorro de uma velha que
passeava com ele ali por perto, de manhã cedo, encontrou o corpo”, falou o Igor,
forçando o tom de história de terror e tentando potencializar sua fala através
de caretas e gestos excessivamente dramáticos. “Que horror! Por isso que a nossa
mãe não me deixa sair sozinha à noite ainda. Agora é que ela não vai me deixar
tão cedo”, retrucou a Rita. Enquanto seguíamos nos equilibrando no meio-fio e
tentando derrubar uns aos outros, meu pensamento ia longe, nebuloso. Eu não
sabia muito bem o que pensar de tudo aquilo e provavelmente nem tinha a
experiência de vida necessária para elaborar a torrente dos acontecimentos como
eles se apresentavam. Assim mesmo, éramos todos, meus amigos e eu, obrigados a
aprender a nadar na marra – arremessados nas águas revoltosas de uma existência
sempre temerária. Entretanto nem todos conseguiam, alguns submergiam e
desapareciam definitivamente.
Na frente de uma borracharia, um homem corpulento – sentado numa pilha de
pneus, ao lado de um grande rádio toca-fitas e cercado por pôsteres de mulheres
com pouca roupa – ouvia compenetrado a voz empostada do locutor que
apresentava, em tom de urgência, as últimas notícias. O Japão se aproximou e,
de um jeito surpreendentemente educado, perguntou que horas eram. Então o
homem, um tanto irritado, respondeu: “Pô, guri! É nove e meia! E vê se não me
enche mais o saco!” O Japão soltou um muxoxo e complementou com um gesto de
vai-te-catar, apesar de não ter entendido muito bem o que tinha feito de
errado. Nenhum de nós entendeu, na verdade, porém achamos melhor seguir nosso
caminho e deixar pra lá. Enquanto nos afastávamos, eu ainda conseguia escutar a
voz do locutor, que ia se tornando cada vez mais inaudível: “Continuaremos
debatendo as consequências do confisco das cadernetas de poupança por parte do
Presidente Fernando Collor de Mello. Não saiam daí! A seguir, uma entrevista
exclusiva com a Ministra da Fazenda Zélia Cardoso...”.
O vento gelado, dependendo do ângulo que adotava, tornava-se cortante
como uma navalha afiada, o que não chegava a diminuir nosso entusiasmo; porque
tínhamos a nosso favor o sol invernal, o céu azul e a brincadeira contínua que
ajudavam a aquecer nossos corpos franzinos. Éramos todos muito pouco
desenvolvidos para nossa idade. O Japão era um guri de ascendência oriental,
muito baixinho, cabeçudo e magro – aliás, formávamos um grupo de crianças
cronicamente magras. Ele era o tipo mais exótico de nosso bairro, pois os
orientais não costumavam ser muito comuns nos subúrbios. O Igor sempre fora o
mais valente, entre nós todos, apesar de ser também o mais magricelo e baixinho.
Sua fama estava relacionada ao fato de não levar desaforo pra casa. A despeito
de sua estatura diminuta, comprar briga com ele era a certeza de levar uma
pedrada na cabeça. É preciso dizer que alguns descobriam isso da pior forma.
Como no caso do Catinga, que, após se desentender com ele, acabou levando uma
pedrada que o deixou meio louco. Passou várias semanas no hospital e, depois
disto, nunca mais foi o mesmo: andava sempre com um capacete de operário na
cabeça, observava as coisas com um olhar perdido e falava cada vez menos, até
emudecer de vez. A Rita era irmã do Igor. Uma espécie de versão masculina sua.
Os dois compunham o exemplo mais perfeito de uma típica família de nosso
bairro: o pai, afundado no alcoolismo, há muito deixara de dar qualquer
assistência à família; a mãe era quem trabalhava até a exaustão, como empregada
doméstica, para tentar sustentar os cinco filhos, enquanto seu marido passava
os dias peregrinando de bar em bar. A Rita, é até desnecessário dizer, era como
todo o restante do grupo: baixinha e magra, muito menor que as outras gurias.
Tinha uns cabelos fininhos e ralos, jeito de guri e – da mesma maneira que seu
irmão – era briguenta e encarava qualquer um, mesmo que fosse do sexo masculino,
já que tinha aprendido com o Igor a técnica da pedrada.
A escolinha de futebol não ficava muito longe de onde morávamos – cerca
de dois quilômetros de caminhada nos separava da guria morta. Trajeto que não
demoraria mais do que quinze minutos para ser percorrido. Obviamente demoramos
infinitamente mais, perdendo-nos em meio às brincadeiras e às histórias mais
fantásticas, contadas com a mais absoluta seriedade. Afinal de contas, fazia
parte dos protocolos – subentendidos em nosso vínculo de amizade – ouvir e
acreditar nas histórias uns dos outros. Pelo menos enquanto estivéssemos em
frente ao narrador. Como quando o Japão contou que seu avô – de quem carregava
uma foto, em preto e branco, muito desbotada e quase ilegível, na carteira –
era famoso em sua terra natal por conseguir enxergar os mortos que estivessem
circulando entre os vivos. Ele nunca soube precisar muito bem o país de onde
seu avô tinha vindo – sua mãe contara-lhe apenas que era de algum lugar no oriente,
mas não sabia se era da China, do Japão ou da Coréia. A foto que carregava
consigo não ajudava muito. Nela podíamos distinguir – com bastante dificuldade
e certa dose de boa vontade – somente o vulto de um homem vestindo umas roupas
estranhas, com uma calça e algum tipo de casaco mais largos do que estávamos
acostumados a ver os adultos usando. O rosto do homem tampouco podia ser
entrevisto. Prestando muita atenção, depois de muito debate, chegamos ao
consenso de que possuía algum tipo de corte de cabelo não menos exótico. Nada
além disso, entretanto.
O Japão, por sua vez, achava que tinha herdado de seu avô tal habilidade.
Coisa que, apesar disso, até aquele momento não passava de uma suspeita. Ainda
assim, mesmo ainda não tendo podido confirmar, através de sinais inequívocos,
tinha a impressão de presenciar fenômenos estranhos de vez em quando. Era uma
xícara que caía da mesa sozinha, uma porta que se abria repentinamente. O que
mais o deixara assustado, no entanto, foi o que havia acontecido quando – ao se
levantar para ir ao banheiro de madrugada – olhou seu rosto no espelho e viu
passar um vulto, como uma sombra em movimento, atrás de si. Desde então, não
haviam sido poucas as vezes em que mijara na cama, por medo de se levantar e ir
até o banheiro. Além disso, era perseguido por um sonho que se repetia
incansavelmente. Sonhava que estava perdido num lugar repleto de araucárias, atrás
das quais percebia dezenas de olhos muito grandes e curiosos o observando. Logo
um homem começava a se aproximar vagarosamente – diria até que com alguma
dificuldade – com passos bastante curtos e calculados. Vestia uma roupa semelhante
àquela dos samurais dos filmes que havia visto na televisão. Porém, quando
olhava em seu rosto, não conseguia distinguir nenhuma forma muito precisa, pois
parecia estar fora de foco. Não como numa fotografia distorcida, mas como
quando os canais de TV saiam do ar. Mesmo não tendo rosto, conseguia ouvir sua
voz que, num determinado momento, repetia: “Estou te esperando. Logo tu irás me
conhecer.” O Japão não conseguia mexer seu corpo, nem mesmo sua boca e, por
este motivo, não conseguia responder ou fazer nenhuma pergunta. Encontrava-se paralisado,
apenas escutando. “Eu já te conheço, sempre estive perto de ti, te observando e
ajudando sempre que podia”, continuava o homem, “Mas chegará um momento em que
já não haverá mais nada que eu possa fazer”, logo suas palavras começaram a se
desarticular e a tomarem a forma de um ruído semelhante ao do canal fora do ar
que formava seu rosto. “Talvez tu não tenhas notado..., tudo..., por isso...,
cuidado...”, as frases já não podiam ser entendidas, eram apenas um chiado
estridente, aumentando rapidamente sua intensidade, tornando-se ensurdecedor.
Em seguida, podia avistar árvores caindo ao longe e se precipitando em sua
direção como dominós enfileirados. Quando se dava conta, já era tarde demais –
um tsunami, que avançava sobre a floresta, o atingia e o engolia por completo.
Como não sabia nadar, era levado ao fundo da água e se chocava contra troncos
de árvores, vacas que esperneavam e até mesmo carros. No momento em que já estava
com seus pulmões cheios de água e asfixiando, experimentava a consciência o
deixando gradativamente. Finalmente iria descobrir o que existia do outro lado
da concretude tão dura da vida, se existisse alguma coisa. Por outro lado,
tinha medo, não queria partir, era ainda muito jovem e não havia conseguido
realizar as coisas que desejava. A partir de então, recolhia toda sua força
restante e tentava nadar até a superfície, não sem antes voltar ao fundo muitas
vezes. Tentava até o limite de suas poucas forças, até que desistia e voltava a
afundar definitivamente. Ao sentir que já não podia escapar à morte, acordava
sobressaltado, com a respiração ofegante – levantava o cobertor e percebia que
estava todo mijado.
Já podíamos avistar uma grande movimentação de pessoas que iam e vinham
da mesma direção, tanto sozinhas quanto em pequenos grupos. Para as crianças tudo
parecia uma grande diversão: os carros de polícia, do IML, a ambulância. Escutamos
duas mulheres, que passavam por nós, dizendo que tinham ouvido dizer que já
estava para chegar uma equipe de televisão para cobrir o incidente.
As cercanias do campinho pareciam o lado de fora de algum tipo de show de
rock ou de um circo, tamanha era a circulação de gente para ver o corpo da
guria morta, alguns tinham vindo de lugares bastante distantes. Não posso
garantir com toda certeza, mas tive a impressão de ter visto passar, em
determinado momento, até um vendedor de água e de refrigerantes, gritando e
oferecendo seus produtos em meio ao povaréu. Estávamos adorando aquele tumulto
todo que, para nós, convertia-se no ponto alto de nossas pequenas férias –
matéria para histórias que seriam contadas e recontadas durante muito tempo.
Quanto mais nos aproximávamos do epicentro do evento, mais densa tornava-se a
parede humana de curiosos. Apesar disso, conseguíamos vencer tal obstáculo com
estranha facilidade, talvez por causa de nossa constituição física diminuta ou
de nossa inquebrantável vontade de chegar ate o corpo da guria. O que importa é
que enfim conseguimos atravessar a barreira e chegar à beirada do buraco. Os
responsáveis pela perícia do local tentavam afastar, o máximo que podiam, a
multidão para realizar seu trabalho. Os profissionais do IML também já estavam
no local, porém esperavam para recolher o corpo, que ainda encontrava-se
descoberto, oferecendo-se à visão de todos. Não saberia descrever o que cada um
de meus amigos sentiu ao se deparar com o corpo de uma guria – aparentemente de
nossa idade, morta e com o rosto desfigurado – jogado dentro de um grande
buraco causado pela erosão da chuva. Confesso que fiquei um tanto sem reação.
Sabia que as crianças morriam, que podiam morrer. Sabia que, por morar onde
morávamos, estávamos muito mais expostos do que as outras crianças e
adolescentes dos bairros onde nossas mães trabalhavam a semana toda. Mas, pela
primeira vez, tal possibilidade tomava contornos muito mais concretos. Tive a
impressão de que meus amigos e eu estávamos ingressando num tipo de noite
permanente – para qual ainda não estávamos preparados –, sem lanternas, sem lua
ou estrelas. Talvez pudéssemos contar (pelo menos naquele tempo parecia
possível) apenas uns com os outros. Como se nossos caminhos estivessem
interligados e enquanto nos mantivéssemos juntos saberíamos para onde
seguir.
Quando me virei para o lado, o Japão estava olhando fixamente em direção
ao corpo da guria morta. Parecia não notar a presença daquele monte de gente à
sua volta. Sem que ninguém além de mim percebesse, moveu seu par de pernas
finas e sua cabeçorra até o outro extremo do buraco e lá ficou parado mais uma
vez, meio catatônico, em seu rosto uma expressão gentil congelada. Passados
alguns minutos, sem nenhuma explicação começou a mover seus lábios. Se houvesse
alguém à sua frente, eu poderia jurar que conversava, de forma contida, porém
animada. Gesticulava com as mãos muito juntas ao corpo, tentando explicar algo
a alguém que eu não conseguia ver. Por isso resolvi me aproximar e tentar
entender o que se passava. Tentei, de modo parecido, não me fazer notar e deslizei
sem muitos problemas por entre as pessoas. Ao me posicionar mais perto,
consegui distinguir apenas um murmúrio, vindo do Japão, ainda muito pouco
audível. Por isso me aproximei ainda mais. “Com quem tu tá falando?”, perguntei
a ele, “Não tô vendo ninguém aqui contigo”. Moveu lentamente seus olhos até
mim, como se olhasse através de meu rosto, e respondeu: “Tô falando com a guria
ali”, e apontou para o buraco, “Não tá vendo? Tô tentando convencer ela a sair dali
de dentro”. Ao olhar para o local indicado, tomei um susto: uma garota muito
mirrada, mas bastante bonita, sorria timidamente em nossa direção. “Aproveita
que tu veio até aqui e me ajuda a convencer ela a sair dali”, falou o Japão com
a maior naturalidade. “Tu consegue me ouvir e ver?”, perguntei à guria. “Claro
que consigo! Vejo todo mundo. Mas por algum motivo até agora só consegui me
comunicar com vocês dois”, falou a guria do buraco onde estava em pé ao lado de
seu próprio corpo. “Mas tem alguma coisa diferente contigo”, continuou, “O guri
de olhos puxados eu vejo como todas as outras pessoas que estão aqui se
agitando à minha volta. Tu, por outro lado, parece ter uma cor diferente: um
tipo de azulado translúcido”. O Japão então me olhou, sorriu com o canto da
boca e falou meio sem jeito: “Alguns demoram um pouco mais pra se dar conta do
que aconteceu e da transformação de sua qualidade. Pelo menos é o que tenho
notado até agora, principalmente quando se transformam estando perto das
pessoas e das coisas que gostam”. No momento em que terminou sua fala, a guria
já estava ao nosso lado. Era alguns centímetros mais baixa do que eu e me
analisava com curiosidade. Estendeu seu braço e posicionou ao lado do meu.
“Olha! Somos da mesma cor”, falou sorrindo. Eu não estava entendendo muito bem
o que se passava – pelo menos naquela época eu ainda não tinha entendido – e
estaria mentido se afirmasse que agora compreendo completamente. Existem coisas
que habitam um espaço além da fronteira de nossa compreensão, que não carregam
consigo nenhum aprendizado comunicável, porque cumprem a função de engrenagem
do mundo e se movimentam sem serem percebidas, fazem da invisibilidade sua energia.
A guria tomou minha mão em sua mão esquerda, a mão do Japão em sua mão
direita, e atravessamos sem pressa a multidão. Do outro lado, a Rita e o Igor já
estavam nos esperando com a mesma alegria de sempre. Contaram-nos que haviam
ouvido alguém comentar que, no centro da cidade, um guri tinha sido atropelado.
Então seguimos pra lá, em fila indiana, tentando nos equilibrar no
meio-fio.
luiz carlos quirino