quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

...




De uma faísca indelével
à intensidade febril
dos olhos inflamados –
espiralados como
a visão de quem nasce
toda a existência condensada
na pequena luz
tremeluzente
soprada pelo
espírito
em
com
bus
tão
.
.
.

A
cor
do
ardente da
divindade ferida
pela torrente de chamas
[a quem pertence o corpo]
em círculos concêntricos
até o intenso do núcleo
até o duvidoso início
e ponto de dissipação
dos recusados – desterro
e beatitude inesgotáveis  


luiz qurino

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

a migração das árvores








A fúria do silêncio
e a discreta migração das árvores
                            e tudo o mais
longe dos sentidos dos homens
e a voragem
das coisas pelas quais somos consumidos
deglutidos sistematicamente
por uma proliferação
de pequenos mistérios

Os piores pesadelos ocorrem
nas horas de sol mais alto
de luminosidade perturbadora
quando somos assombrados pela nitidez
e mesmo nosso rosto já é outro
cada ruga nos consome
dobrando-se até o limite
em que a identidade
se desfaz e se refaz

Em movimento
em degradação e vida

luiz quirino

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

e se jorge não se chama borges nem luis





Numa das realidades
enosadas na realidade
jorge não se chama borges
                        nem luis
nem nunca teve contato com nenhuma
biblioteca ou livro
puxa uma carroça [de tração humana]
recolhendo o que foi descartado
no centro de porto alegre quem sabe
a coisa mais concretada
o perde em seu próprio labirinto
mais vivo ou menos vivido
depende
e se ele nunca existiu
não há o que se lamentar – então
seus olhos intactos registram o mundo
que se apresenta
em toda sua violência
de exuberante demanda
da ficção


luiz quirino

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020



Quem não conhece aquela raça
a dos que definham aos olhos de todos
enquanto arrastam a indignidade
que ilustra certa propriedade do “real”
           – certa resistência –
impossibilidade de sobrevivência
fabular ou mesmo lírica
a não ser a golpes de picareta
                                e mãos calosas
[meus irmãos morreram tão jovens
já conhecendo o equívoco e
os sobreviventes curvados]
estamos dispersos
enfraquecidos pelas miragens
tão objetivas que nos atordoam
nos impelem a nos envenenarmos
                       gradativamente
tentando aplacar a tristeza
somos a raça que se dissolve
enquanto espera
o que nos salve ou escravize
enquanto se reproduz
não escreverão nossa história
nem traçarão nossa genealogia
demasiado vexatória
circulamos entre a multidão
como fantasmas concretos
embora translúcidos
e deixamos perplexos os céticos
e os entusiastas do progresso
e seu desprezo disfarçado
nos contamina ainda
somos a raça que definha
aos olhos dos saudáveis
certa propriedade do real
que ameaça sua sobrevivência
bruma que se dissipa
levando consigo
toda a paisagem

 luiz quirino

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019





Àqueles que não tem nada
e abraçam um tempo parado
de espera e esperança
céticos contra as nuvens de tempestade
e as profecias que às vezes se confirmam
em ocupações subalternas
duma vida vista de debaixo pra cima
espécie de metafísica dos objetos
que não se pode ter

e o tempo pra quem espera algo
pra quem tocou o fundo
pra quem tem seu corpo consumido
de variadas formas
enquanto as feras dilaceram
a medida dos homens e mulheres
é feita pelos sinais
que exteriorizam seu valor
como a velocidade da queda
o alinhamento dos dentes
a brancura das unhas
uma lista de 87 itens
todos reluzentes e melancólicos

por isso esta saudade difusa
daquilo que nunca viveremos
e o andar arrastado
que retrocede sobre os dedos
grossos que não cabem nos bolsos
sem fundo
de dentro do buraco sem tempo
são como garras inúteis
daqui a lua parece tão clara
que até tenho medo
que seja impossível  

luiz quirino

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

mais antigo




Algo muito mais antigo –
entre nossas retinas e o mundo
– aparafusa uma lanterna
gelada
duo entre ver e andar
o que se encrava
no subsolo até o núcleo
sem dor ou pressa
provido de precisão
anterior à espera
extraindo uma alegria difusa
deixando um ramo seco
aos descendentes
exilados pela terra
marcha interminável
rumo ao núcleo
que recomeça todas as noites
renovando a traição
remoída e expelida
rumo à superfície


luiz quirino

sábado, 21 de dezembro de 2019

ferruginoso




Como respiração encerrada
num envelope todo inflado
pequena apneia dos objetos
distribuídos meticulosamente
pelo mundo – mudos e
carregados de violência
como se quisessem fugir
à procura de alguma garantia
contra a rarefação
e a vacuidade produzida entre os corpos
que se precipitam
uns contra os outros
maquinalmente amorosos
parcialmente vivos
menos brilhantes do que ferruginosos
do que os olhos espirituais e reflexivos
e alguns dentes perolados
arrastando passos trágicos
como se o asfalto os fizesse mais sorridentes
e cogitassem uma respiração deveras ofegante
e se pudéssemos ler o futuro no voo
das aves marinhas?
em meio ao sorriso ou à respiração
plagiando nossos antepassados
maus plagiadores do tecido
que morre na fila do caixa
à espera do troco – embora
sentindo algum frescor nas calúnias
que trazem na bolsa
mentimos igualmente quando
escrevemos nosso nome
sem o peso da culpa
já que a era dos grandes homens
revelou-se mera alucinação
agora tudo parece mais vivo
tão claro que nos impele à crueldade
certa lucidez de insolação
torna melancólicos nossos
movimentos cadenciados e geométricos
abrangendo um limitado raio
talvez menor do que o
de um condenado
uma geometria que se expande
como um tumor fractal
– a respiração artificial que
produz as ervas mais felizes
e abundantes em sabedoria
anônimas e silenciosas


luiz quirino

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

língua morta









Um filamento de ar
morno atravessa o tempo
nos varais da casa
das lembranças
(nem chega a mover
as fronhas estendidas)
sopra a monotonia
necessária ao poema
e à fermentação dos dias
a alegria dobrada numa gaveta
aguarda as tardes solares
por agora – apenas lama
silvos continuados da
memória comprimida
entre os sulcos da terra
arada pelo caminhar
obsolescente dos dentes gastos
do olhar que se distancia
da vida em suspensão e
                      enterra-se
no filete de sangue da língua morta
usada mais para calar do que dizer
língua não filológica
língua-apagamento  

luiz carlos quirino

domingo, 28 de julho de 2019








os meninos desistiram
como se o tempo houvesse se esgotado
e esse esgotamento se espalhasse
por contágio
se transformando em cansaço

ou uma linha de fuga
que alimenta uma linha de destruição

por toda parte os relógios
puseram-se a gaguejar
semelhantemente ao movimento
dos fantasmas em queda

e seus estilhaços atravessam
o tempo e o espaço
decapitados

a carne concreta dos fantasmas
sente as navalhadas das horas
e esvai-se esvaziando-se –
é a carne que marca o tempo

com maior precisão 


luiz carlos quirino

terça-feira, 2 de julho de 2019





Um poema e seu poeta
– olhados de perto –
são tão pequenininhos
da linhagem do tardígrado
tão longevos e inúteis
derradeiras testemunhas
de um mundo que
desaparece continuamente
um bilhete
aos improváveis remanescentes
sem remetente ou corpo distinguíveis
a quem tiver ou olhos ou ouvidos
ou às ruínas e aos minúsculos roedores
dizem o inédito do que já foi dito
                                   e dizem novamente
– para que possa ser esquecido –
o infinito que só pode ser descrito
através do ínfimo e suas variáveis
atirado ao aeon dos trabalhadores
da palavra em seu cansaço
na prostração da tarefa impossível
de minerar o buraco deixado pelo silêncio
tentam extrair sua pulsação
sem sacrificarem as próprias vidas
antes que o liame se rompa
e seus corpos já não sejam passíveis
de escrita ou suspensão
ou se desfiem continuamente


quarta-feira, 19 de junho de 2019







Nós – que comemos
copulamos e morremos
sem restarem vestígios ou
provas concretas de nossa existência
as pequenas e as grandes mentiras
operadas zelosamente como
as fugazes e pequenas alegrias
uma beatitude de pedra descarnada
fenda por onde caímos continuamente
entre os feriados prolongados
as férias e o sonho da casa própria
diferenciamo-nos pelos dentes
pela profundidade de nossas frustrações
ou pela competência em
administrar nossa desilusão
alguma dignidade revela-se na
capacidade de rir
a maioria – no entanto
é pequena e frágil
apesar da evolução
dos antibióticos e dos antidepressivos
a extinção ainda ronda
quem são esses que rastejam
de forma tão parecida com a nossa
falam um idioma familiar
mas nem por isso capazes
de se fazer compreender
e fogem aterrorizados
com nosso grito
de gozo ou desespero
e se somos nós esses
covardes e impotentes
no espelho total do mundo
que tudo deforma
quem é o homem que morre
a caminho do trabalho
que é desligado banalmente
maço de cigarro inconcluso
dentes inéditos
sem atrapalhar o tráfego
sem alterar a pressa
ou a velocidade infinita


sábado, 8 de junho de 2019






Mesmo que lançássemos
nossos olhos às nascentes
os riachos continuariam secando
ante as mentiras dos líderes
um risco d’água como num sonho
onde corremos parados ou voamos
ou caímos das nuvens
a destruição continuaria
mesmo que não a víssemos
mesmo contra a inocência dos otimistas
há tanta sede quanto pressa
tanta arte quanto banalidade
mais-valia dos relógios
presos aos calcanhares dos trabalhadores
enquanto o galo corre entre os automóveis
o dia morre
para que a produtividade se intensifique
e já não nos recordamos
do aspecto de nossas mãos
nem de como aqui chegamos
já não podemos continuar
tampouco parar é uma opção
a ser considerada
aquele que possui os olhos vazados
aquele que se aproxima do deserto
e ricocheteia atingindo os inocentes
como em um dia banal
como o erro que possibilita a vida
e a terra sob as unhas
está úmida – elas, pretas
as unhas – todas nossas unhas


luiz carlos quirino

quarta-feira, 29 de maio de 2019





Alvorada –
manhã
que
renova
a queda –  
onde a intraduzível
loucura se adensa
rasurando os homens
fazendo deles apenas índices
de seu próprio desespero
máquinas dóceis
oxidadas pelo desânimo:
a destruição principiará
pela sofisticada tecnologia do corpo
e será completa
se no início havia o verbo – não o uivo
a proliferação daquele
nos entregou um mundo estéril
em que a raiz da fala se contorce  
à procura d’água – ou minério
o cão chacoalha o azul do pelo
e pelo chão se espalham as pulgas
à procura da raiz do sangue
onde a luz se faz ausente
onde  tudo coagula
onde as pulgas são os únicos seres
dos quais os homens são dignos
ou os piolhos
até que os olhos se acostumem
ao silêncio da visão
e os pulmões, ao vácuo
e as raízes dos homens se contorçam
destroçando-se sob a terra.


luiz carlos quirino