quinta-feira, 12 de março de 2020


Os desempregados endireitam-se
__________na fila
entre a igreja e o desfile fascio
à espera dos pelotões de palhaços
e demais patriotas matrimoniais
tudo é hino delírio ou prece
lisonjeira decapitação dos dias
nas fábricas a cada vez inabitadas
no timbre da voz afásica de perto se
clama pela destruição do mundo
vejo a avenida cortada
pelo corvo de corpo flamejante
que incendeia a casa onde deus
dorme tranquilo sobre os mundos
sinto meu próprio corpo sem peso

remendo preces ao deus nulo
que de sua janela nos observa
e o desespero dos homens límpidos
sob a concretude das lousas e a dureza
das leis que regem e despencam
no céu nublado à noite
as nuvens escondem algo terrível
restam-nos as luzes dos edifícios
brilhantes e quase sem vida
de minha cabina espero que as
ondas transportem os cosmonautas
sedentarizados no engavetamento
às dezoitos horas da
_________segunda-feira-raquítica



luiz carlos quirino

sábado, 7 de março de 2020


Cortar o haraquiri com lâmina cega
contra a pedra áspera dos calcanhares
aqui cravados entre o texto
_____________e é de medo
que os calos endurecem o discurso
sendo diamantes falsificados
fosforescem através da noite
das crianças parricidas e a sociedade
para o progresso dos códigos e cifras
ante a escrita vertiginosa

exala o hálito de estricnina
em estricto sensu hábito
de desaparecer gradativamente
voando abaixo do nível do mar
esperando que os peixes também
_________levitem
até a origem da infâmia que
acompanha minha sombra sem nome
e sem história – quase muda

um acidente e as vozes
rolam pelo declive
em silêncio quando as comemos
com dentes frágeis – de porcelana
que se quebra antes de conseguirmos
decodificar a mensagem
vinda de longe – de terras mortas
por nós abandonadas na segunda infância
agora falsificada nos sorrisos desdentados
como nosso único interior


luiz carlos quirino

terça-feira, 3 de março de 2020






















num experimento pedagógico
________digamos
Jesus tenha preferido o ladrão
então matamos o professor
e continuamos matando
por que o céu caiu
transformando em
______eternidade
a violência
e a verdade
numa bondade anêmica
de cores desbotadas e
sem plumas
no labor-saving machine
nem se imagine salvo
das máquinas

ou do
labor

porque após o carnaval
impõe-se um tempo de monstros
– de desfiguração
saídos das gengivas pálidas
e da semântica estéril
quase o chamado secular
para uma vida horrenda

perturbações
psíquicas &
poltergeist

nas vitrinas
mais assombradas do que decoradas
em ruas onde o vento olha
para o outro lado
enquanto sigo
____atravessando
__________paredes
com estudado rigor



luiz carlos quirino

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020


e a epidemia já estava instalada
desde o início na ponta dos dedos
dos mercadores da morte e da tristeza
nos olhos turvos de seus fanáticos
____________e entusiastas
e o futuro passou a ser apenas um detalhe
indistinto do passado glorioso e delirante
como um sintoma persistente
e eu era apenas mais um

a loucura fez suas vítimas aos montes
as pôs em quarentena e compartiu
desconfiança generalizada na terra de Caim
quem viu as armas as máquinas as formações
pensou tratar-se de um desfile ou de um
abatedouro – lugar de ódio e obediência
e eu era apenas mais um

qual é a vacina para a megalomania
tão mais medíocre quanto mais doce
pequeno animalzinho tirânico
a ser sacrificado à nação dos idiotas
o velho burguês tirava água do rio
numa lata enferrujada e cortava
sua língua nas rebarbas de seu fala
afiada de tétano e incompreensão
e eu era apenas mais um

estatísticas mentirosas de neon
maravilhavam os pets presidenciais
que se engalfinhavam atrás das migalhas
da mesa e compartilhavam suas pulgas
em estado terminal infinito [e de graça]
espalhando seu vírus em pequenas ampolas
e eu era apenas mais um
meio vivo quase vivo


luiz carlos quirino

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020


O seco eixo do rio
alaga sobre mim uma lacuna
abrindo caminho entre a fábula
e o peso do concreto
lâmina de fogo que executa
a contagem regressiva
para minha morte onde
enfim encontro a casa vazia
tempo simultâneo em que
ainda nem nasci e sou
trazido à luz continuamente

Nas coisas assentadas
sob a claridade
é inútil indagar sentido
visto que nossa infâmia envolta
num casulo de megalomania
coincide com o mundo
em ferrugem e calúnia

Numa tristeza estival
grunhem palavras cotidianas
que transcrevo com linotipos
incandescentes em minha pele
a história dos vencidos
do limbo à carne viva

Seria preciso manter os fósforos secos
e raspar as páginas dos livros
rente à raiz esperar a floração
a volta do verde denso
idêntico à ferrugem dos rios
e ao tétano das facas
com que ferimos a terra
e depositamos a origem


luiz carlos quirino

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020


Como o soalho das casas incendiadas
ou o animal carnívoro

Como as crianças desparecidas
ou a farpa debaixo da unha

Como o grão no asfalto
ou a ferida silenciosa

Como a esperança do proletário
ou o tempo não interrompido

Como a enchente à noite
ou os dentes adocicados

Como a foice contra a pedra
ou o cego na esquina

Como a cidade que se extingue
ou os humilhados que exaltam

Como a eletricidade das folhas
ou os homens ruminando motores

Como as mães que morrem
ou o amor transfigurado


luiz carlos quirino

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020


À noite –
quando a cidade se aquieta
se nos mantivermos atentos
talvez consigamos escutar o rumor
das cores que estalam
como uma casa calma
ou sol nas plantas ao meio-dia
me alegra dormir ao som do azul
sus-
      sur-
            ra-
                 do
que se instaura
quando fecho os olhos
tanto que até me distraio da morte
e se derreto um sibilo alaranjado
consigo preencher os buracos
de meu impronunciável nome

À noite –
quando estou só –
mas às vezes gostaria
de  poder compartilhar
este pequeno milagre amoroso
inscrito em todas as coisas
menosprezadas
pelos homens sérios
porque o mundo é tímido
e se retrai diante de nossa brutalidade
o que fica à mostra é apenas um rastro
uma alucinação na ponta dos dedos
se silencio é escuta
e tudo que escrevo
é meu próprio corpo
às braçadas à nascente
um gole do mundo
antes do afogamento


luiz carlos quirino

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020







Aos dezoito graus a vida decai
de maneira imperceptível e mortal
e os foguetes não estão prontos
ainda
do exílio
Ruy Belo observa a praia
– eu nem sequer nasci
                         mas já sou pobre
e sonho com coisas tão pequenas
                             e inalcançáveis
e contemplo o vazio como se visse o futuro
o ainda por vir que talvez nem chegue
porquanto as grandes geleiras
se desprendem do continente
e a floresta queima como os livros
na casa invadida pela enchente
à noite levitamos – enquanto
nossas coisas vão embora
o século vinte e um
converteu a vida em nostalgia
para que nunca cheguemos a ser adultos
porque o tempo consome
                      sua própria cabeça
abaixo dos dezoito graus



luiz carlos quirino

domingo, 9 de fevereiro de 2020


O próprio desespero perde
o homem apagado pelo dia
sem crenças ou nascimento
de vísceras arruinadas pelo
frio da vingança e a notícia
da expiação impraticável

limiar registrado no corpo
na delinquência dos gestos
e na metástase que avança
até pude treinar a maneira
de adulterar o rosto às segundas
de coca aço e velocidade

luiz carlos quirino

sábado, 1 de fevereiro de 2020


Se eu perseguisse uma meta
naufragaria meus dias atrás
                                       de uma máquina
e seria considerado um cidadão exemplar
distribuiria gentilezas fugazes
e faria mandinga contra o mau-olhado

mesmo ninguém invejando o homem
que enfileira palavras numa folha
e constrói inúteis habitações onde
ninguém deseja morar

se eu fosse um grande lobo
devoraria o pastor que
conduz sua ovelhas ao abismo
e satisfaz seu sadismo através
do balido amedrontado dos
que despencam

por isso ando só pela terra
pilotando a bicicleta roubada de Jarry
e afundando no caudaloso absinto
dos livros
e seus córregos de Babel
entre cogito e delírio

eu sou um náufrago no cotidiano
e nado oceano adentro para
onde os animais catastróficos
enfim descansam
longe dos cargueiros da morte
e cantos de estrogênio

e são autotrepanações como palavras
distribuídas ao corpo docente do caos
e aos cães raivosos da província
portadores de sonhos avaros
cunilíngua como política de Estado

luiz carlos quirino

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020


Os famintos arrastam suas carcaças
até os shopping centers
e dançam com a cabeça do presidente
da república decapitada
transmitem a festa através de seus
smartphones das lojas em escombros

incendeiam as mandalas dos
fala-mansa-universitários
e cagam sobre seus vegetais orgânicos
fazem churrasco com os lulus das
madames petrificadas de botox
que circulam seu jogging pelos corredores
e precipitam para a morte os consumidores
como kamikazes alucinados

todos esperavam a Revolução
agora que ela escancarou seus dentes
requerem o restabelecimento
da ordem em três vias
com firma reconhecida em cartório

mas os tabelionatos também
viraram cinzas
e os amotinados
treinam alvo
nas bundas gordas
dos cidadãos de bem
dos acadêmicos
dos sindicalistas
dos reaças dos
empreendedores
dos escritores
dos comunistas
e demais farsantes
progressistamente
distribuem seus coices
ostentando suas patadas
ao som do pancadão...


luiz carlos quirino

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020


É preciso traduzir as rasuras
muito mais do que o texto
lê-las em voz alta
e extrair dos borrões
o núcleo movediço do signi-
                                  [ficado

transformar
seu sumo
numa ética

entropia permanente da
vida que urra – chafurdando o lodo
inutilizando páginas
e páginas de
imaculada
Civilidade


luiz carlos quirino

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020


Quietude nos livros
tornados mudos pelo cansaço
de não haver
uma única definição possível
tamanha a brutalidade do vivido

à volta o hiperbólico das unhas
que tentam conter o grão de areia
sem peso ou carne – onde o todo
é insolação e movimento
de palavras enfileiradas
reproduzindo o rumor
de sua aglomeração

arrastadas continuamente
as páginas apodrecem e
as palavras transmutam-se
              em metafísica oca
e se embaralham germinando
a gramática da imensidão selvagem

quantas línguas são necessárias
para se alcançar a ideia de língua ou
prever o passado ou ensaiar a verdade

e quando os livros todos
forem convertidos em sopro
restará apenas a pequena utopia
de quem não tem nada

além de toda a ortografia dos
que acampam sob viadutos
de poder pronunciar ou ser
com a paixão do animal
                       devorado
ou da fabricação do
algoritmo da vida

luiz carlos quirino