quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

cobiçaria o ar fresco &
a ilusão de que tudo daria certo
na queda inicial
 
se o desejo não estivesse interdito
desde o nascimento
 
[uma vez vi um guri ser esfaqueado
em frente à casa – e ele ainda andou
alguns metros antes de sumir]
 
metáfora do que persiste ou
impossibilidade metafísica
 
eu desconhecia
Spinoza e sua turma
mas suspeitava de certa união
das coisas alastradas no choque
dos afetos que às vezes nos
levam a vida
 
[tempos depois o esfaqueador
apareceu – crivado de balas –
às margens do córrego]
 
esperamos o momento
em que seremos suprimidos
num bombardeio ou perturbação
 
(de felicidade)
 
longe
os ricos gozam em seus bunkers
construídos sob os desaparecidos 


luiz carlos quirino 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

 

colchão
de navalha
lençol de sal
em que o pássaro
       descansa
do coágulo
nas asas
 
mientras hacía calor
 
sonha
com a volta do céu
e a merda
 
despencando
sobre a humanidade
hasta hacerla
apagar-se
 
e borrar
a contingência
que precede
o canto
 
tão silencioso
quanto cirúrgico
ao final

luiz carlos quirino 

domingo, 27 de dezembro de 2020

 

agora o fantasma ronda
o mensageiro e os corpos
deixaram de ser contados
 
existe uma peste lá fora
mesmo que a festa pareça
não ter fim e o ar se esfarele  
 
atrás dos olhos
a agitação das imagens
em vórtice – a urgência
cada vez mais insuportável
 
no meio o tremor do corpo
das despedidas e cupins
roendo os pés
embaixo do chão
 
verifico a voracidade
do som da madeira
se fragmentando
 
no tempo intangível
da espera – colho
serragem sanguínea
 
e o deslocamento vira
uma folha do caderno
em que as pautas
caem –
 
nunca teremos paz porque
a mensagem não será
concluída  


luiz carlos quirino 
 

sábado, 26 de dezembro de 2020

 

Fora
das estrofes
– existe urgência
menos fuga do que fantasmagoria
exausta dos próprios gestos
 
– princípio e fim
do rosto
 
se me alieno
da transposição
feita de tempo e espaço
e precipito meu
nascimento
 
– espera do que se distancia
sem ter se aproximado –
 
a seguir
rearranjo as sílabas
de meu nome e
componho um
vaticínio
 
proliferação e aposta
sibilação e enxame
 
tudo posso como aquilo que
nasce e morre continuamente
 
[naquele tempo em que
encerávamos o assoalho
de tábuas díspares]
 
por isso inventei uma biografia
de frestas nas tábuas e brilho
de tudo o que não chega


luiz carlos quirino

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

 

máquina – cega dentro
do relâmpago
 
estática atrás das engrenagens
que fabricam o reflexo
 
– e espessura da anorexia
entre o que não reluz e
nem têm força para medir
a distância entre si e o céu
de seu delírio
 
movo os dentes da polia
e desloco alguns gramas de respiração
espremendo o cansaço
 
das plantas que brotam nos
carros quando deságuam no mar
sob o efeito da boca
 
movo os dentes cravados na carne
para sentir o gosto do sal
e da sedimentação
 
do que evapora
apesar da peso


luiz carlos quirino 

domingo, 15 de novembro de 2020

 
quando submerge
na embriaguez funda do mundo
 – o eu dos muitos estilhaços
se debate
 
tentando recompor
alguma figura
 
o eu entre mim e o ilimitado
escutando a respiração das coisas
e o espírito em agitação
 
de si ao que finda entre
as moléculas e a harmonia
ao redor de cada existência
 
– morrer e se diferenciar
num único acorde

luiz carlos quirino

domingo, 8 de novembro de 2020

reconheço as estrias – 
como moldam as vogais no fogo
na ferida que não pode ser dita
sem ferir a boca

nos cardumes do sentido
se projetando contra as pedras
represando a língua
espaço vazio entre
mim e a voz

– animal sobre a mesa

vertigem da lembrança
pena apenas do futuro
– casa do esquecimento
e dano – enigma do mal

toalha sobre a mesa
sobre o assoalho em chamas

antes fosse sonho
o que não posso dizer
sem acordar
dento do sonho
ao infinito
e outra vez

luiz carlos quirino


sábado, 7 de novembro de 2020

 

em suma – divido

em duas partes a laranja

sumo do zero à volta

dois dedos contra a fronte

e pareço anunciar uma guerra

sumo da violência e luz

 

regressa ao zero

tudo o que é entorno e

desaparece entre meus dedos

na possibilidade mais sombria

de iluminar o silêncio

 

já não posso

trabalhar com as mãos

sem me envenenar no asco

sem apontar em direção

                 ao déspota

sem perder

as unhas

 

os que ressuscitam

prefeririam não o tê-lo –

voltar ao terror que nunca

termina ou começa

 

corro a tranca dos olhos

que faíscam eletricidade

metálica no rosto


luiz carlos quirino 

 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

 

insetos chamuscam a noite

que rodeia a lâmpada  

 

durante a queda da tarde

sobre rosáceas e roxos

 

tão fúnebres quanto

o borrão dos minutos

 

na mão da mãe uma sacola

carregada de navalhas

 

cortando os dedos a casa

os móveis e a fala

 

que rodeia a lâmpada

de epidemia


luiz carlos quirino  

 

sábado, 31 de outubro de 2020

 

o que é um corpo

senão ideia

           desarticulada

na cadeia diferencial

dos desencontros

 

ou resistência ao nome

 

máquina de vida e morte

 

o que é uma morte

o que é uma vida

o que é um nome


luiz carlos quirino

 

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

a espiral e a vertigem

o animal e a voragem

 

         encruzilhada

 

um adjetivo para nomear

o céu noturno –

 

silêncio em luz

 

sobre calçados e fuga

traçada num livro

 

             de voz

 

fulguração como

torniquete

e estorvo  


luiz carlos quirino 

sábado, 10 de outubro de 2020

temia escrever o nome

de forma cristalina e

desaparecer completamente

atrás do próprio assombro

 

copiando o animal

inerte contra o sol:

verme que escava

a carne insípida

 

como

 

a sombra escreve

ao meio dia e

calcina os dedos

com a mesma insônia

que escava o sonho

 

contra o terrível corpo dos generais

do chacais e carniceiros adjacentes  

 

feito alvo de cal viva

sobre Lages e cruzes

 

livre do desalento dos

que ainda não nasceram

e que talvez nem vinguem

sem nome – sem sombra


luiz carlos quirino 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

breve véu –
verdade aproximada
entre deus e o animal
reflexo partido no espelho
e sombra cindida –
estranho a si mesmo
 
 a não substância
da oração materialista
se o trabalho fere os dias –
dizer e ser fundem-se em trevas
 
de ave
que despenca
do céu noturno
e afirma a impossibilidade
de cair
 
ave e vulto que se enrugam
em voo em torno da consciência
de seu peso
 
em relação à gravidade
e a inércia operando
seu terror íntimo
preso ao labirinto
que nem sequer começa
 
ou dissipa sua névoa
mais pesada que os pés
metros longe do chão –
animal para a verdade
e para o mal


luiz carlos quirino