domingo, 24 de março de 2019








seguir anônimo como
todos
os demais homens
os que esperam a morte distraídos
silenciosos como a natureza
harmoniosa em sua solidão
seguir contra o esquecimento
do cervo devorado pelo leão
não ser menos importante
do que o ganhador do prêmio nobel
que nossa tentativa de sobrevivência passa
por nossas habilidades com as mãos
sua precisão, sua força
passa pela abundância da terra
pela negação das palavras
ou sua fecundidade
pela prosperidade das lixeiras dos ricos
por nossa capacidade de submissão
e – em alguns raros momentos – de
________insurgência_________

LUIZ C. QUIRINO

sexta-feira, 22 de março de 2019








Apenas quem já teve
a casa invadida pela enchente
sabe que o sagrado não existe
apenas o fora absoluto
e alguns momentos de repouso da violência
é o coração aflito das mães
o cachorro que espera no portão
a segunda-feira do trabalhador
suas mãos calosas e unhas limpas
e deus, o deus lá fora
quando os abandonara
quando os fizera tão determinados
e cândidos
ao mesmo tempo tão mortíferos

Apenas quem já teve
a casa invadida por agentes do estado
sabe que o sagrado não existe
apenas o abandono absoluto
e alguns momentos de repouso da violência
é o coração aflito do trabalhador
suas mãos dispostas junto à parede
as unhas ruídas
e deus, o deus lá fora
incomunicável
quando os fizera tão exaustos e beatos
ao mesmo tempo tão resignados

Apenas quem já teve
o corpo incendiado à noite
sabe que o sono não existe
apenas o vigília absoluta
e a beatitude da ventura



LUIZ CARLOS QUIRINO

sábado, 16 de março de 2019

a biografia dos insetos









Talvez um dia
alguém escreva a biografia
dos cupins que percorrem
assombrosas extensões
nos pés dos homens imóveis
muito mais do que nas casas velhas
e correm de lá pra cá feito cartas
esticando um fio de memória
se olharmos devagar
enquanto o automóvel segue ligeiro
junto ao banhado à beira da rodovia
lembram o mergulho das perdizes
alguns insetos oxigenam o sangue dos homens
alimentando-se de suas perdas
sonhando reviver certas palavras
já quase sem pronúncia
como pode ser delicada a morte
quando cometida por um inseto
como pode ser sonora
mesmo que tenhamos ouvidos tão pequenos
e nossas pernas sejam tão frágeis
e não aguentem muito mais
do que um lampejo da verdade
sem se dobrarem
somos tão lentos perto deles
nosso léxico tão mais pobre
perto deles somos tão vulgares


LUIZ CARLOS QUIRINO

quarta-feira, 13 de março de 2019


homens excessivamente ruidosos
que submergem no fogo
como se as palavras frondosas
sufocassem o tédio ontológico
de suas mensagens e corpos
trabalhadamente derrotados
dobrados sobre si próprios
até que a cabeça forme
um ponto de interrogação
[point-blank]
evidenciando seu cansaço
homens excessivamente translúcidos
em que o dentro e o fora se confundem
suas luzes clandestinas nos edifícios
ofuscam os astros
desenhados no firmamento
quem ainda possui digitais
nas pontas dos dedos?
quem ainda possui um nome
que coincida consigo mesmo?
à imagem fraturada a desrazão
ao animal sem alma a vertigem
ao se perder o fio
perde-se também parte do sonho
seus fluxos e presságios
comparáveis à sorte e seus signos
“o grito” falsificado na parede
homens excessivamente solares
ofuscantes em sua promessa de vitória
doentes mensageiros de um corpo
excessivamente saudável
otimizado até o limiar
entre a abundância e a violência
– uma dívida  


LUIZ CARLOS QUIRINO DA SILVA

domingo, 3 de março de 2019

Sorriso-serrote




se voltássemos a ser criança
e o espanto da vida fosse-nos mais próximo
se fôssemos aquele animalzinho curioso
incapacitado para a dissimulação
se nossos dentes ainda estivessem brancos
e o sorriso vindo deles
não cortasse como um serrote
talvez as mães jamais morressem
e todas as casas seguissem conosco
em nossas pequenas mãos
tempo anterior à invenção da vingança
vento das coisas imaginadas
quando elas ainda não possuíam corpo
antes do vórtice – ou em sua volta oposta
24 horas da hélice – plena de luminescência
de quando o escuro era apenas um medo

LUIZ CARLOS QUIRINO



domingo, 24 de fevereiro de 2019

sequência inconsequente








[primeiro] exortam-se os homens
com as armas mortíferas os dinheiros
e seu ego ao centro
erigindo-se totens em todas as esquinas
exigindo-se gravidade frente aos ídolos
[depois] um quê de desespero irrompe
a partir dos poros envelhecidos
já que os jovens são estranhos
à esperança tanto quanto à espera
[por fim] deus torna-se absoluto e supérfluo
– um flato no universo
causador dos furacões e das guerras
e agora que nos tornamos todos autômatos
em nosso fazer da perversidade
proliferam-se os desafetos e os eletrônicos
e ninguém mais dorme
nem eleva os olhos ou neles olha
assombrados pelas pics
– picada pior que a heroína


LUIZ CARLOS QUIRINO DA SILVA

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

as fronteiras e os limites








(a Pedro Paiva)

onde guardamos
os sonhos não realizados
e quando os perdemos
onde procuramos
vai-se vivendo enquanto isso
[e recordando]
cada dia pesado
como uma promessa
um campo aberto
um mapa
numa língua estranha
numa fronteira
o limite impreciso
entre o que foi dito
e o que jamais poderá retornar
a linha invisível que demarca
o vazio contínuo ao sul
onde o mais difícil
é deixar-se desaparecer
em meio aos desaparecidos
desaparecer-se a si mesmo
no campo vasto
desertificado
fantasmagórico
ruidoso
onde guardamos
os sonhos não realizados
ou perdemos

LUIZ CARLOS QUIRINO



domingo, 17 de fevereiro de 2019

queda livre


sonho que estou caindo
acordo alguns centímetros
____ainda suspenso
as pessoas já se odeiam lá fora
e se atiram em queda livre
a cabeça mergulhada no vácuo
os braços perdendo as escamas
habituados à queimadura da vertigem
e o peso já não se mede numa balança
maior do que a coragem
inferior à memória
a suspeita de que além
_________nada existe
turva-nos a miragem restante
da vida ao outono
do inverno à infância
e novamente o gelo
alguns centímetros suspenso
navalha in natura
e – prematura – a cabeça
transpõe o tempo
e pelo espaço adentro se deixa

LUIZ CARLOS QUIRINO

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019







face rubra e mãos trêmulas
como se houvesse esperança
como se amanhã o dia retornasse
e a vida fosse possível

o mundo é extremo – e caímos sempre

que as olheiras escrevam nos olhos
acostumados ao oco das órbitas

os mortos febris suportam o
peso da terra e o nosso
os ossos por todos os lados
apoiam as casas vazias
vidas breves e velozes
negociadas no escuro
cada qual como um
pequeno relógio obsoleto
os ponteiros de animal
jogado na máquina do mundo
[matadouro contínuo]

o terror vindouro é
página-quebranto
pondo em prática
atávica – errando
com ênfase e
fulguração
full
or

off


LUIZ CARLOS QUIRINO

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Um trato (A pact)






Um trato

Faço um trato contigo, Walt Whitman –
Já te detestei tempo bastante.
Venho a ti como guri grande
Que teve pai cabeça-dura;
Já tenho idade bastante pra fazer amigos.
Foste tu que rachaste a lenha verde,
Agora é hora de esculpi-la.
Temos a mesma seiva e raiz -
Que haja troca entre nós.




A pact

I make a pact with you, Walt Whitman - 
I have detested you long enough.
I come to you as a grown child
Who has had a pig-headed father;
I am old enough now to make friends.
It was you that broke the new wood,
Now is a time for carving.
We have one sap and one root - 
Let there be commerce between us. 

Ezra Pound (tradução - Luiz Carlos Quirino)









tendo lançado o barco
à correnteza –
as mãos anêmicas
suplicam por absolvição ou alimento
como resposta – aves contraditórias
e presságios
dado que a si mesmas trabalham
com chumbo e sutileza
numa sobrevivência enfraquecida
e muito menos [naturam naturatam
e muito menos]
nos vestígios da razão
nos livros enfim o silêncio
nunca mais se pôde dormir
por causa do gritos dos mortos
nossos gritos
e os joelhos tortos

LUIZ CARLOS QUIRINO


domingo, 13 de janeiro de 2019







Era aquele tempo em que
as mães sacrificavam seus filhos
à noite não podíamos dormir
por medo de sermos devorados
a arte continuava morta
deus, desaparecido
e era difícil caminhar pelas ruas
tomadas por roseiras
sem cortar os pés ou
avistar um cometa
daí a magnitude do fracasso
transfigurava-se em tímida alegria

Era aquele tempo em que
as mães educavam seus filhos
à noite começávamos a colher
(em meio aos cervos degolados  
na larga entrada da porta)
os seus intestinos
inverossímil estalar das uvas
flambadas pela poeira
em encorpados gestos
se reproduzia o enigma
alguma virtude – desamparo
equilibrávamos na finíssima linha

Era aquele tempo em que
os filhos educavam-se no sacrifício
à noite mais morriam que dormiam
junto aos cervos devorados ao meio
uma arte de largar-se à sorte
entre deuses e assassinos
e era inverossímil caminhar
em meio às uvas e às roseiras
encorpados pelos cortes nos pés
e o problema dos cometas
em descompasso a virtude e o fracasso
e o sentido da alegria eram as mães.

LUIZ CARLOS QUIRINO



domingo, 6 de janeiro de 2019

__________




O que deseja a guria
que revela o rosto entre os dedos
conversa com os canários e
ouve assombrada a bondade das coisas
passa as noites em claro
sonhando com a guerrilha
acredita que a justiça é uma forma
__________de amor
e que um fascista
não o sabe e não pode
preso entre um passado
_____________fantasmagórico
e um futuro impossível
enquanto dança
em redor da fogueira
apenas o nome queimando
e o vestido de fogo
nesta noite permanente
e ela penetra o mistério do mundo
sem a desconfiança da dívida
ninguém sabe de onde veio
o rosto que se desfaz
entre os dedos
transfigurando-se em constelação
singularidade e variações
maneja a espada
ainda que de olhos cobertos
_____


LUIZ CARLOS QUIRINO