quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

 




retomo a intervenção
dos dedos –
             nós fantasmas
sobre a ferida –
a pulsação da nervura
a ardência do real
 
persigo a imprecisão
de cada endereço
tão baixo que nem escuto
o rompimento de meus dentes
e o choque da língua
na espessura
do banal
 
esqueço a intervenção
e retorno a uma casa diferente
a cada vez
 
modulo a voz conforme
a extensão do enigma
dirigido a mim mesmo
                     no futuro
 
grão a grão
nos azulejos da boca
aberta
 
e assombrada no tempo
de água cristalina na

concha
              da mão


luiz carlos quirino
 
 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

 



é fácil transportar uma casa
através do espaço e do tempo
mais difícil é mover meu corpo
um milímetro – adestrado
à espera e ao cumprimento
da tarefa de ter fé
 
enquanto a manada afunda
o caminho barrento – afundo
minhas pálpebras no concreto
entre a parede e o ilegível
 
sob a casa que carrego
nas costas – de olhos fechados
guiado pelo rangido dos minutos
que se chocam contra portão
sem tramela
 
cuja lassidão desespera
o animal lento – de corpo pesado
do tamanho de uma casa

luiz carlos quirino 
 
 

domingo, 31 de janeiro de 2021




seguro
um ramo de luz
entre os dentes
e queimo a língua
na incandescência
das palavras
 
pronuncio
sí-la-ba por sí-la-ba
tentando impedir
que o incêndio
devore a vida
 
sub-reptícia na arqui-
tetura de cada frase
erigindo uma ponte
sobre a sombra
e o silêncio
 
caudalosos como a respiração
que cadencia minha fala
e alaga as margens
 
seguro
uma mariposa de luz
entre os dentes
e deixo a noite
carbonizada
ruir 


luiz carlos quirino
 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

 







lembrava o ruído
das nuvens se despedaçando
ou o atrito do ar na água
quando soprava a íris
de meus olhos
 
enquanto esperava
que voltasse à vida
com a hora seca no
meio de um livro
 
e o uivo
do joão-de-barro
na janela
 
tinha esquecido
a forma de meu rosto
ou o gosto dos
parafusos na língua
 
não podia voltar
sem o mapa
desenhado por
suas unhas
do lugar onde
nunca estivemos
 
chamava-se
chuvarada-em-dia-de-verão
e só agora aprendi
a pronúncia correta
 
agora que minha boca
se choca no concreto

luiz carlos quirino 
 

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

 



os olhos que sustêm a fagulha
estão gelados &
 
a arquitetura de livros eletrônicos
sobre conjecturas obscurantistas
jaz:
 
instruções para armar uma
fogueira – viagens espaciais
e cura para o quebranto
 
o rosto que recebe a navalha
está cindido &
 
pouco jovem para o século
pouco velho para nascer
 
tão frívolos
os dedos deixam rastros
ferruginosos nos azulejos
e na
 
brancura hospitalar
dentadura cerâmica
 
o corpo que degrada a paisagem
está brotando &
 
velhos fantasmas voltam
a assombrar reduzidas telas
 
[LED como espectro
ou cruzada]
 
o soturno dos dentes esconde
a extinção na fogueira
de vaidades
 
alegria pornográfica
em looping
em looping
 
o esforço que arrasta a eternidade
está rarefazendo &
 
a entonação da voz denota fragilidade
 
as mãos que sustentam o ofício
estão cansadas


luiz carlos quirino 

sábado, 16 de janeiro de 2021

 

o apito da fábrica
tenta salvar os vagabundos
dos pais de família
 
quitar o crediário
comprar mais um
pente de munição
 
enquanto sonham acordados –
apertam os parafusos da decência
 
continuamente quase hora
do almoço e ônibus lotado
e Jesus três vezes por semana  
 
& não importa quantos livros tu leias
serás sempre um fodido hereditário
 
& não importam os anjos de Leonard
Cohen numa terra arrasada
 
construí uma casinha
e esperei o pior ou à
moda Tonico & Tinoco
as simples tristezas atrás
dos silvos os Silvas  


luiz carlos quirino 
 
 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

cobiçaria o ar fresco &
a ilusão de que tudo daria certo
na queda inicial
 
se o desejo não estivesse interdito
desde o nascimento
 
[uma vez vi um guri ser esfaqueado
em frente à casa – e ele ainda andou
alguns metros antes de sumir]
 
metáfora do que persiste ou
impossibilidade metafísica
 
eu desconhecia
Spinoza e sua turma
mas suspeitava de certa união
das coisas alastradas no choque
dos afetos que às vezes nos
levam a vida
 
[tempos depois o esfaqueador
apareceu – crivado de balas –
às margens do córrego]
 
esperamos o momento
em que seremos suprimidos
num bombardeio ou perturbação
 
(de felicidade)
 
longe
os ricos gozam em seus bunkers
construídos sob os desaparecidos 


luiz carlos quirino 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

 

colchão
de navalha
lençol de sal
em que o pássaro
       descansa
do coágulo
nas asas
 
mientras hacía calor
 
sonha
com a volta do céu
e a merda
 
despencando
sobre a humanidade
hasta hacerla
apagar-se
 
e borrar
a contingência
que precede
o canto
 
tão silencioso
quanto cirúrgico
ao final

luiz carlos quirino 

domingo, 27 de dezembro de 2020

 

agora o fantasma ronda
o mensageiro e os corpos
deixaram de ser contados
 
existe uma peste lá fora
mesmo que a festa pareça
não ter fim e o ar se esfarele  
 
atrás dos olhos
a agitação das imagens
em vórtice – a urgência
cada vez mais insuportável
 
no meio o tremor do corpo
das despedidas e cupins
roendo os pés
embaixo do chão
 
verifico a voracidade
do som da madeira
se fragmentando
 
no tempo intangível
da espera – colho
serragem sanguínea
 
e o deslocamento vira
uma folha do caderno
em que as pautas
caem –
 
nunca teremos paz porque
a mensagem não será
concluída  


luiz carlos quirino 
 

sábado, 26 de dezembro de 2020

 

Fora
das estrofes
– existe urgência
menos fuga do que fantasmagoria
exausta dos próprios gestos
 
– princípio e fim
do rosto
 
se me alieno
da transposição
feita de tempo e espaço
e precipito meu
nascimento
 
– espera do que se distancia
sem ter se aproximado –
 
a seguir
rearranjo as sílabas
de meu nome e
componho um
vaticínio
 
proliferação e aposta
sibilação e enxame
 
tudo posso como aquilo que
nasce e morre continuamente
 
[naquele tempo em que
encerávamos o assoalho
de tábuas díspares]
 
por isso inventei uma biografia
de frestas nas tábuas e brilho
de tudo o que não chega


luiz carlos quirino

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

 

máquina – cega dentro
do relâmpago
 
estática atrás das engrenagens
que fabricam o reflexo
 
– e espessura da anorexia
entre o que não reluz e
nem têm força para medir
a distância entre si e o céu
de seu delírio
 
movo os dentes da polia
e desloco alguns gramas de respiração
espremendo o cansaço
 
das plantas que brotam nos
carros quando deságuam no mar
sob o efeito da boca
 
movo os dentes cravados na carne
para sentir o gosto do sal
e da sedimentação
 
do que evapora
apesar da peso


luiz carlos quirino 

domingo, 15 de novembro de 2020

 
quando submerge
na embriaguez funda do mundo
 – o eu dos muitos estilhaços
se debate
 
tentando recompor
alguma figura
 
o eu entre mim e o ilimitado
escutando a respiração das coisas
e o espírito em agitação
 
de si ao que finda entre
as moléculas e a harmonia
ao redor de cada existência
 
– morrer e se diferenciar
num único acorde

luiz carlos quirino

domingo, 8 de novembro de 2020

reconheço as estrias – 
como moldam as vogais no fogo
na ferida que não pode ser dita
sem ferir a boca

nos cardumes do sentido
se projetando contra as pedras
represando a língua
espaço vazio entre
mim e a voz

– animal sobre a mesa

vertigem da lembrança
pena apenas do futuro
– casa do esquecimento
e dano – enigma do mal

toalha sobre a mesa
sobre o assoalho em chamas

antes fosse sonho
o que não posso dizer
sem acordar
dento do sonho
ao infinito
e outra vez

luiz carlos quirino