domingo, 3 de março de 2019

Sorriso-serrote




se voltássemos a ser criança
e o espanto da vida fosse-nos mais próximo
se fôssemos aquele animalzinho curioso
incapacitado para a dissimulação
se nossos dentes ainda estivessem brancos
e o sorriso vindo deles
não cortasse como um serrote
talvez as mães jamais morressem
e todas as casas seguissem conosco
em nossas pequenas mãos
tempo anterior à invenção da vingança
vento das coisas imaginadas
quando elas ainda não possuíam corpo
antes do vórtice – ou em sua volta oposta
24 horas da hélice – plena de luminescência
de quando o escuro era apenas um medo

LUIZ CARLOS QUIRINO



domingo, 24 de fevereiro de 2019

sequência inconsequente








[primeiro] exortam-se os homens
com as armas mortíferas os dinheiros
e seu ego ao centro
erigindo-se totens em todas as esquinas
exigindo-se gravidade frente aos ídolos
[depois] um quê de desespero irrompe
a partir dos poros envelhecidos
já que os jovens são estranhos
à esperança tanto quanto à espera
[por fim] deus torna-se absoluto e supérfluo
– um flato no universo
causador dos furacões e das guerras
e agora que nos tornamos todos autômatos
em nosso fazer da perversidade
proliferam-se os desafetos e os eletrônicos
e ninguém mais dorme
nem eleva os olhos ou neles olha
assombrados pelas pics
– picada pior que a heroína


LUIZ CARLOS QUIRINO DA SILVA

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

as fronteiras e os limites








(a Pedro Paiva)

onde guardamos
os sonhos não realizados
e quando os perdemos
onde procuramos
vai-se vivendo enquanto isso
[e recordando]
cada dia pesado
como uma promessa
um campo aberto
um mapa
numa língua estranha
numa fronteira
o limite impreciso
entre o que foi dito
e o que jamais poderá retornar
a linha invisível que demarca
o vazio contínuo ao sul
onde o mais difícil
é deixar-se desaparecer
em meio aos desaparecidos
desaparecer-se a si mesmo
no campo vasto
desertificado
fantasmagórico
ruidoso
onde guardamos
os sonhos não realizados
ou perdemos

LUIZ CARLOS QUIRINO



domingo, 17 de fevereiro de 2019

queda livre


sonho que estou caindo
acordo alguns centímetros
____ainda suspenso
as pessoas já se odeiam lá fora
e se atiram em queda livre
a cabeça mergulhada no vácuo
os braços perdendo as escamas
habituados à queimadura da vertigem
e o peso já não se mede numa balança
maior do que a coragem
inferior à memória
a suspeita de que além
_________nada existe
turva-nos a miragem restante
da vida ao outono
do inverno à infância
e novamente o gelo
alguns centímetros suspenso
navalha in natura
e – prematura – a cabeça
transpõe o tempo
e pelo espaço adentro se deixa

LUIZ CARLOS QUIRINO

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019







face rubra e mãos trêmulas
como se houvesse esperança
como se amanhã o dia retornasse
e a vida fosse possível

o mundo é extremo – e caímos sempre

que as olheiras escrevam nos olhos
acostumados ao oco das órbitas

os mortos febris suportam o
peso da terra e o nosso
os ossos por todos os lados
apoiam as casas vazias
vidas breves e velozes
negociadas no escuro
cada qual como um
pequeno relógio obsoleto
os ponteiros de animal
jogado na máquina do mundo
[matadouro contínuo]

o terror vindouro é
página-quebranto
pondo em prática
atávica – errando
com ênfase e
fulguração
full
or

off


LUIZ CARLOS QUIRINO

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Um trato (A pact)






Um trato

Faço um trato contigo, Walt Whitman –
Já te detestei tempo bastante.
Venho a ti como guri grande
Que teve pai cabeça-dura;
Já tenho idade bastante pra fazer amigos.
Foste tu que rachaste a lenha verde,
Agora é hora de esculpi-la.
Temos a mesma seiva e raiz -
Que haja troca entre nós.




A pact

I make a pact with you, Walt Whitman - 
I have detested you long enough.
I come to you as a grown child
Who has had a pig-headed father;
I am old enough now to make friends.
It was you that broke the new wood,
Now is a time for carving.
We have one sap and one root - 
Let there be commerce between us. 

Ezra Pound (tradução - Luiz Carlos Quirino)









tendo lançado o barco
à correnteza –
as mãos anêmicas
suplicam por absolvição ou alimento
como resposta – aves contraditórias
e presságios
dado que a si mesmas trabalham
com chumbo e sutileza
numa sobrevivência enfraquecida
e muito menos [naturam naturatam
e muito menos]
nos vestígios da razão
nos livros enfim o silêncio
nunca mais se pôde dormir
por causa do gritos dos mortos
nossos gritos
e os joelhos tortos

LUIZ CARLOS QUIRINO


domingo, 13 de janeiro de 2019







Era aquele tempo em que
as mães sacrificavam seus filhos
à noite não podíamos dormir
por medo de sermos devorados
a arte continuava morta
deus, desaparecido
e era difícil caminhar pelas ruas
tomadas por roseiras
sem cortar os pés ou
avistar um cometa
daí a magnitude do fracasso
transfigurava-se em tímida alegria

Era aquele tempo em que
as mães educavam seus filhos
à noite começávamos a colher
(em meio aos cervos degolados  
na larga entrada da porta)
os seus intestinos
inverossímil estalar das uvas
flambadas pela poeira
em encorpados gestos
se reproduzia o enigma
alguma virtude – desamparo
equilibrávamos na finíssima linha

Era aquele tempo em que
os filhos educavam-se no sacrifício
à noite mais morriam que dormiam
junto aos cervos devorados ao meio
uma arte de largar-se à sorte
entre deuses e assassinos
e era inverossímil caminhar
em meio às uvas e às roseiras
encorpados pelos cortes nos pés
e o problema dos cometas
em descompasso a virtude e o fracasso
e o sentido da alegria eram as mães.

LUIZ CARLOS QUIRINO



domingo, 6 de janeiro de 2019

__________




O que deseja a guria
que revela o rosto entre os dedos
conversa com os canários e
ouve assombrada a bondade das coisas
passa as noites em claro
sonhando com a guerrilha
acredita que a justiça é uma forma
__________de amor
e que um fascista
não o sabe e não pode
preso entre um passado
_____________fantasmagórico
e um futuro impossível
enquanto dança
em redor da fogueira
apenas o nome queimando
e o vestido de fogo
nesta noite permanente
e ela penetra o mistério do mundo
sem a desconfiança da dívida
ninguém sabe de onde veio
o rosto que se desfaz
entre os dedos
transfigurando-se em constelação
singularidade e variações
maneja a espada
ainda que de olhos cobertos
_____


LUIZ CARLOS QUIRINO



domingo, 23 de dezembro de 2018

A mensagem do dinheiro



Uma sintaxe em elipse
com a qual já não se pudesse escrever
um texto como em 1964
qual salto mortal
poder ainda se pode
mas é toda uma torção da língua
que trabalha contra sua própria vitalidade
delírio de sol escaldante –
os olhos tremem a voz gagueja
tanques nas ruas
inconjugáveis com atabaques
e com a mensagem do dinheiro
sem destinatário e cristalina
pés assustados esquivam-se
do inseto sem cabeça em giro
corpo gramatizado – ABNT das formas
e usos dos prazeres autóctones
sob obscuras penitências
autoantropofágicos – arco e
flecha contra o canhão e a cruz
o último brasileiro originário
ardeu como os mendigos
enrolado à bandeira
vermelha desde sempre
vermelho-sangue por toda a parte
sobretudo nas cédulas
quanta surpresa ao nos depararmos
com a impossibilidade de decodificação
de enunciado tão direto
dos homens que
limpam o cu com dinheiro
depois se calam
e censuram o beijo grego
[dizem que os bigodes dos generais
possuem mau cheiro terrível
não mais insuportável do que
o dos empreendedores
seculares ou divinos]
ou o culto ao enxame
o xamã masca junto à fogueira
– ritual destinado a todos
o que equivale a ninguém
ou à língua secreta ou morta
retornando transubstanciada em muro
florescendo vertiginosa
guardando a casa vazia


LUIZ CARLOS QUIRINO

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018






que fracasso estonteante este nosso
mal disfarçado nas fotos das férias
nas declarações públicas de amor
na conjugação equivocada dos verbos
sempre muna praia
[mais tosca que paradisíaca]
ou qualquer paradeiro exótico
aos centenas de amigos imateriais
o oco do corpo à mostra
os dentes postiços em segredo
que fracasso o cheiro do carro novo
a aquisição da casa própria
ao fundo um insistente eco
um fantasma cruza a frente do obturador
e por um segundo a verdade
quase pode ser entrevista
fantasma que de tão patético
nos faz rir

LUIZ CARLOS QUIRINO

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Ulisses




os sinais dos dias
tornam-se desesperadores
nas ruas – enlouquecem os homens
seus olhos esvaziam-se de si
quando se apercebem
já não sabem mais voltar
há tanta crueldade concentrada
num espaço tão estreito
como o de uma existência
as mães o sabem e dormem pouco
os objetos perdem-se igualmente
aos seres e aos projéteis – apenas
o grau de abandono os diferencia
no mundo da vertigem
é preciso acostumar os olhos de vereda
ao vazio do caminho
luminoso que corta o céu escuro
aos restos nas beiradas
ao odor erosivo do temor
às mãos que já não
sabem segurar o lápis
moldadas conforme o
movimento do gatilho
nado na enxurrada devastadora
daquilo que combinamos chamar
                                                     morada
Ulisses é o dono da rua
[um pouco de sorte e não será morto hoje]
nós seremos
e já não temos de onde regressar
ou regressamos interminavelmente
o que dá no mesmo
o que tanto faz


 LUIZ CARLOS QUIRINO

domingo, 16 de dezembro de 2018

Transubstanciação menor
















suspenso entre o tempo
que ainda não chegou
e o que já se perdeu
um pouco adiantado
sempre
um pouco ainda
inimaginado
ferida –
entre a vontade de dizer
e a impossibilidade
do choro

a violência dos homens
contaminou cada palavra
o último vocábulo pacifista
foi desperdiçado
na tentativa de comunicar
aos sequestradores a tempestade
que intempestivamente aponta
– em fazê-los desistir

até que meu
nome seja esquecido
pelos homens do futuro
ou queimado
uma após outra as expectativas
se desfarão entre as páginas
enquanto nos matamos
uns aos outros
antes – no entanto
falaremos uma vez mais
e despedaçaremos o fio de voz
que resta contra o muro frio


LUIZ CARLOS QUIRINO