domingo, 23 de setembro de 2018

Fukushima



Greg, Greg, Greg, o seu destino é três vezes traição. Nada se pode fazer a respeito. Está escrito e minha tarefa é apenas narrar. O autor dessa história sabe muito bem do começo, meio e fim. Mas o que interessa não é de onde viemos, onde estamos e para onde vamos. O que interessa é a aventura. 
Greg pegou o metrô, pegou o ônibus, viajou 12 horas para encontrar o seu amor em Prata Dourada. Três paradas, três cervejas. Muito conscienciosa do direito dos outros, não quis chegar na casa de Diógenes durante a madrugada. Sentou-se na rodoviária e tomou mais três cervejas, até que desse 6 horas para aportar no endereço do seu amor.
Destino, que palavra misteriosa. Primeiro é preciso viver a aventura para sabê-lo. Só na vida de aventura pode-se encontrar verdadeiramente o amor.  Destino e necessidade, a combinação dos muitos nomes, governando o caminho e as sortes humanas. Cerveja, necessidade para suportar o tempo da espera e acalmar o ser para ir ao encontro do destino, o qual só pode ser narrado, não explicado.
Uma cerveja na cidade grande, três cerveja na estrada, três cervejas na chegada. Sete, o número da sorte de Greg. Sete, fim e começo, morte e vida. Greg estava calma, calma demais. Cochilou no bar da rodoviária de Prata Dourada, perdendo a noção das horas. Quando olhou o relógio passava das 7, resolvendo ir ao encontro com a roupa que viajou, deixando o vestido novo florido e decotado para depois.  Sem batom, sem vestido, sem salto alto, faria uma surpresa ao  amor.  Comprou buquê de copos de leite da florista, negra retinta, mãos rudes do labor camponês, bruto e belo contraste com a brancura densa das flores que floresciam à beira dos riachos nas redondezas úmidas de Prata Dourada.
Desceu  a rua correndo, não prestando atenção na paisagem que poderia apreciar  do alto do morro. Lá embaixo, adentrou na rua do amor que terminava na fresca mata verde onde ficava a casa de Diógenes.  Ela esperava encontra-lo regando o jardim ou tomando sol, ouvindo música bem alta, pois era sempre assim que ele contava nas cartas as suas auroras solitárias. Estranhamente silenciosa a casa, uma casa enorme, estranhamente enorme para quem mora sozinho. Apertou a campainha. O cachorro latiu e veio ao encontro de Greg, latindo e pulando nas suas pernas e arranhando seu corpo.
- Cão amado, que estranho furor.   Calma Teodosius ... Me diga, onde está nosso Di. Ele dorme, também perdeu a hora? Calma Teodosius. O que acontece com você meu cãozinho. É saudade? É saudade?   
Teodosius respondia com latidos estranho para os ouvidos de Greg que sabia bem o que é um cão, ela própria vivendo uma vida de cão. Ela avançou no jardim rumo à casa, Teodosius tentava impedir arranhando suas pernas. Na escada encontrou Diógenes de roupão. 
- O que você está fazendo aqui Greg?
- Uma surpresa, meu amor. Trouxe essas flores para você. 
- Lixo, Greg, joga essas flores no lixo.
 - Lixo, meu amor? Você não gosta mais de copos de leite?
- Não, não gosto. Por que você não me avisou que viria?
- Pensei que minha surpresa seria bem-vinda.
- Não, não é bem-vinda. Lixo. Você é um lixo. Lixo atômico é o que você é. A gente não sabe o que fazer desse lixo. Depositar no fundo, bem fundo da terra e asfaltar grosso por cima, nem assim ficamos livres do lixo tóxico que é você.
- Lixo tóxico? Não entendo isso. Nas últimas cartas tratamos do nosso casamento e você jurava amor eterno. O que acontece?
- Acontece que carta é só literatura. A vida é outra coisa.
- Vamos conversar lá dentro amor, você está nervoso. Vamos acalmar. 
-  Entra. O que há de se fazer?  Acabemos de uma vez com essa farsa.
Teodosius ofegante quis entrar com os dois pela porta da cozinha. Diógenes o chutou, impedindo seu acesso.    
Greg pôs a mão no coração ao ver seu retrato bem grande pregado na parede da sala. Da cozinha via, inacreditavelmente via, seu retrato entre as flores rabiscado de batom vermelho, furado e ferido. Escrito em letras grandes vermelhas: BAGULHO.  
Diógenes falava alto, gesticulava as mãos, parecia um professor irritado com seus alunos.
- Você tem que entender, Greg. O amor é imoral. Ele pula palavras, compromissos, escapa, não interessa mais nada. Você não me interessa.  Não me interessa mais. O único que ama você aqui é o cão pulguento.
Teodosius latia e arranhava a porta.
- Você ama outra mulher?
- Sim, amo outra mulher e estou vivendo com ela aqui nesse bordel.
- Bordel?
- Sim. Bordel. Você não percebeu sua tonta. Não presta atenção onde anda?
- Essa letra no meu retrato é dela?
- Sim, amaldiçoamos você Greg. Amaldiçoamos seu recato entre as flores.  Fizemos esse vodu para que você nunca aparecesse aqui. Mas você é uma cadela pulguenta inquieta e veio. Nem mesmo o vodu mata sua inquietude. Vá embora Greg.  Deixe eu e Rosa vivermos na santa paz  do nosso bordel.
- Rosa? Que Rosa?
- Rosa, a única Rosa, Greg. Afinal quantas Rosa você conhece? Por que eu diria Rosa para você que só conhece uma Rosa. 
- Ela não está em Tokio?
- Tokio é aqui. O nome do bordel é Tokio.
Greg abriu a porta. Seca, sem lágrimas, corpo gelado, boca sem palavras, cabeça sem pensamentos, desceu as escadas, desceu a rua, desceu ao inferno. Teodosius junto, agora em silêncio abanava o rabo e a seguia, seguia sem olhar para trás nunca mais.   Greg e Teodosius seguiam juntos no Absurdo do silêncio e do descolamento dos corpos da história. Um mundo sem tempo.  Atrás o fogo ardente consumia a mata, o jardim, a casa, os gases liberados pelo incêndio envenenavam Prata Dourada e todo seu entorno, com ameaças de uma catástrofe global pelas águas dos rios contaminadas e pelos ventos danosos.  
Os jornais da região informaram que nos escombros, os bombeiros da capital, que chegaram ao lugar quando o fogo já havia tudo consumido e  defumados os corpos, encontraram apenas resquícios de um papel queimado com algumas palavras que pareciam de uma carta e os restos queimados de um vestido florido.
Alhures, distante de Prata Dourada, numa cidade grande e sem metrô, rica de pobres, de nome Redenção, desciam da traseira suja de um caminhão uma mulher com o corpo ferido e um cachorro pulguento. O motorista do caminhão os deixou perto do cartório na periferia onde sabia ter um santo e velho burocrata que rebatizava os renegados da história com novos nomes. Assim nasceram Biela e Macróbio, ambos paridos do Nada.    
Depois de uns dias sem tempo e sem nada, pesquisando em silêncio com olhares atentos, Biela e Macróbio escolheram a calçada de um bar-restaurante, chamado Fome & Sede, frequentado pelos pobres trabalhadores de uma usina de aço. Ali instalaram uma precária banquinha com folhas de papel fino pautado e canetas. Na parede atrás da banquinha, um cartaz: “Saturnália – Aqui se escreve cartas de amor”.
E assim vivem Biela e Macróbio, trabalhando na calçada e dormindo numa barraca nos fundos do Fome & Sede, por gratidão de um pernambucano que é o proprietário do restaurante.   Analfabetos da região formam filas ao entardecer para encomendar as mais estranhas e irreais cartas de amor que Biela escreve por uns míseros trocados que alimentam  a ela e  Macróbio. Os clientes de Saturnália só não sabem que as cartas são  ditadas pelo cão através de um fio invisível que liga seu coração em chamas às mãos incendiárias da moça de olhos fulminantes  e fogo no rabo.   

Marta Rezende | economista, consultora em projetos e produções culturais.

Um cão anda pra luz


Um cachorro
crivado de carrapatos
se vê frustrado em sua tentativa
de ensinar alguma
humanidade aos homens
latir talvez seja mais fácil
a animalidade intempestiva
essência do humano
violência em sua forma mais pura
um arranhar de palavras nas portas
como garras que despedaçam
semanticamente as categorias
predatórias – posto que famintas
a perseguir o próprio rabo
e o homem é o melhor amigo de quem?
as patas delicadas desenterram
ossos e sucatas de
uma cultura em via de extinção
tanatocrata da fauna
da flora – da  memória
uivos – uivos
uma vez chegada a noite
seremos caçados
como animais
que nunca deixamos
de ser.

Luiz Carlos Quirino

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Os dedos que restam





Como se desperdiça uma vida?
da mesma maneira que se constrói
uma armadilha
se compra cigarros numa esquina
ou uma poltrona
o trabalho banal, alguns seriados
depois tudo foge ao controle
e os objetos nos imobilizam
torcem nossos dedos
arrancam nossas unhas
com o nosso assentimento
como se deforma uma vida?
o medo perverte a alegria
a transformando em fetiche
num fascismo dos objetos
que consomem seus consumidores
a casa já não é um lugar seguro
é – antes de tudo – um sítio febril
os dedos que restam contam os dias
mais depressa
e já pesamos mais do que quando principiamos
por isso a sensação de afundamento
como se perturba uma vida?
como se perde o ônibus
quando se aproxima a chuva
e tudo escurece e as portas se fecham
e não estamos mais em casa
e a mãe é apenas uma invenção
distorcida nas memórias antigas
atrás dos olhos a noite se adensa
como um sono sem sonho – ou morte
caímos infinitamente num abismo cego
nos ferimos nos entulhos de uma vida
indefinidamente implodida –

Luiz Carlos Quirino

domingo, 22 de julho de 2018




Agora
que a única alegria possível
apresenta-se como desânimo incurável
pintamos o rosto com cores berrantes
por baixo
apenas a degradante
pele silenciosa
a cidade são só esquinas
à espera de que o corpo inercial
cruze suas ruas sem nome
até o logradouro total
lugar aonde nunca chegaremos
escondemos os olhos e usamos
as mãos de forma degradante
por questão de sobrevivência
estamos sempre
um pouco mais mortos ao amanhecer
à noite já sacrificamos quase tudo
então vestimos nossa máscara funerária
e esperamos novamente o recomeço
um mergulho no abismo do cotidiano
de palavras insuficientes
de trabalho produtivo e alienante
de casas tomadas por objetos inúteis
que trocamos por nosso tempo
tempo de vida
                            irrecuperável
e fingimos acreditar no futuro
enquanto a vida produz sua morte
– o trabalho produz sua pobreza.


Luiz Carlos Quirino

sábado, 14 de julho de 2018

Quando um cão encontra um homem perdido


Se os fantasmas vagam
silenciosos pelas ruas
é porque a justiça paira
também ela transformada
em poeira de esquecimento
ouvimos gritos à noite
e o corpo convulsiona de medo
agora que a amizade
é pesada numa balança
e já não nos lembramos do essencial
e as crianças tornaram-se insuportáveis
porque nos lembram a morte
praticada diariamente

às vezes um cão
encontra um homem perdido
e lhe lambe os olhos
então ele descobre o seu lugar
e enlouquece de felicidade –
é preciso perder a razão sempre
que a desesperança pavimente o caminho
e amar contra o mundo
esse amor não correspondido
é preciso – no entanto – que o cão
encontre o homem perdido.

Luiz Carlos Quirino





domingo, 8 de julho de 2018


Tamanha brutalidade da beleza
molda-se impossivelmente
conforme a resistência da retina
capaz de cegar os mais sensíveis
há aqueles que a perseguem – ainda assim
até a loucura ou o extermínio
da perfeição à violência gratuita
seu encanto em movimento ininterrupto
perturba a terra e a calmaria dos fluidos
bordô nas bordas – como ferida
artéria da fúria quando a única
solução possível é aquela
que também nos aniquila
tormenta que já desponta no horizonte
Adonai da crueldade manifesta
em pirâmides construídas sobre o sangue
de escravos aos milhares – como moscas
verborragia dos que agonizam maravilhados
sob os pés do Deus-sádico
ou sob as botas do Führer
pairando sobre a paranoia:
a arte-inútil limita-se à vida
e os passos descalços cruzam a fogueira
ardente – até sobrar apenas a queimadura.


Luiz Carlos Quirino

domingo, 1 de julho de 2018

Eu me sento e observo lá fora


Eu me sento e observo lá fora todas as tristezas do mundo,
toda a opressão e a vergonha;
Eu ouço o soluço convulsivo e secreto dos jovens, angustiados
consigo mesmos, arrependidos de seus atos;
Eu vejo a mãe maltratada por seus filhos, morrendo, na marginalidade,
negligenciada, magra e desesperada;
Eu vejo a esposa maltratada por seu marido, vejo o ardiloso
sedutor de jovens;
Eu percebo o rancor do ciúme e do amor não correspondido,
tentando ser escondidos – Eu tenho estas visões da terra;
Eu vejo o funcionamento da batalha, da pestilência, da tirania,
vejo mártires e prisioneiros;
Eu observo a fome no mar – observo os marinheiros arremessando
os que serão mortos para preservar a vida dos demais;
Eu observo os desprezos e as degradações lançados, por pessoas arrogantes,
sobre os trabalhadores e os pobres, sobre os negros e seus semelhantes;
Todos estes – toda a mediocridade e agonia sem fim e eu sentado
olhando para fora;
Vejo, escuto e estou em silêncio.

Walt Whitman
(Tradução: Luiz Carlos Quirino)


sábado, 30 de junho de 2018

Meu nome é ninguém


Já não há mais tempo para impossibilidades
a memória cansada apaga meu nome
e desenovela-se continuamente
logo restará apenas um esboço
da obra que poderia ter sido
cada milésimo de segundo
encontra-se agora comprimido
pelo tempo
sou um espécime já extinto
da glaciação vindoura
testemunha dos últimos dias de felicidade
betume de toda ciência e técnica acumulados
por uma civilização excessiva
meu nome é ninguém – ou todos
já não sei ao certo
diante da boca do inferno
os bagos de uva despencam de meus dedos
quiçá meu nome seja Legião, Dante ou Darwin
aquele que era – que é e que vem.

Luiz Carlos Quirino

terça-feira, 26 de junho de 2018

Atrás da porta


O Veredicto dessa vez  seria no quinto andar, o andar mais alto.   Foi pelas escadas, evitando encontros inesperados na intimidade estranha dos elevadores.  Quando trabalhou ali, tentando fazer a justiça ser justa, todos e todas queriam se aproximar com beijinhos. Mas agora não se aproximariam mais, Ela sabia do seu destino.  Estava ali porque é melhor  ir até o fim dos caminhos. As pernas não queriam, mas foram se arrastando puxadas pelo coração que ia à frente.  Bateu na porta do quinto andar. A porta se abriu sozinha. Atrás da porta, um porteiro cochilava. Ela o acordou para o necessário diálogo.
- Bom dia senhor porteiro, tenho uma reunião com o Juiz Superior.
Abrindo os olhos como se acordasse na tumba, da boca do porteiro saiu o  hálito quente com lentas e indiferentes palavras. 
- Ah, a senhora deseja ainda falar com o Juiz?
- Desejar não desejo, senhor, mas vim pegar o Veredicto.  
- O Juiz Superior não está minha senhora. Se tem horário marcado com ele, não sei o que fazer, nem sei mesmo porque ainda estou aqui, tudo agora é digital. Vou perguntar à Grande Secretária Eletrônica  que sabe tudo e saberá também como proceder nesse caso encrencado. Pode se sentar e aguardar.  
No confortável sofá importado da Inglaterra com almofadas bordadas com esmero na Polônia, Ela esperou olhando pela última vez, Ela sabia que seria a última, ficou olhando as paredes coberta pelos gobelinos estampados com os reis da França.  Olhava de vez em quando o velho  porteiro que a olhava de esguelho com seus óculos embaçados de quem ganha pouco salário mas tem que usar gravata dourada listrada de prata para cochilar.  
Uma voz metálica de repente falou pelas paredes:
- Dirija-se à sala 508, um Juiz Não Tão Superior está atrás da porta.
Abriu a porta onde uma placa indicava 508. Não havia ninguém, somente uma gigante tela de três faces que começou a falar.
- A senhora, ah sim, a senhora quer saber do Veredicto. Está na memória.  A rua decidiu o Veredicto do Processo e  a Justiça reiterou, a senhora foi condenada  por usar em demasia a justiça para  fazer justiça.  Pronto, é esse o Veredicto. Agora, por favor, retire-se.
Apesar de ser uma tela, Ela insistiu.  
- Senhor Juiz Não Tão Superior de três faces, a metade da rua não me condenou.
Apesar de ser uma tela, retrucou.
- Esse lado da rua que não te condenou, a tela desconhece, não tendo memória para arquivos que não interessam.
Apesar de ser uma tela, Ela gritou.
- Mas eu tentei fazer Justiça. E agora o que vou fazer da minha vida?
Apesar de ser uma tela, respondeu.
- Quem faz justiça justa, vira barata. Se quiser chegar à rua, vá pelo boeiro pois não há mais portas aqui para a senhora atravessar. É o seu fim.    
Mais uma vez Ela desobedeceu às telas. Virou um escaravelho. Fez três bolinhas de merda e jogou nas três faces da tela. Fez outra bolinha, agarrou-se nela e foi rolando escadas abaixo até o Grande Jardim da rua. Procriando filhotes na merda, entre flores e pedras, cantou por 12 anos  com o fio afiado da língua dos insetos a Canção da Esperança nos Homens.  

SP - 30.01.2018

Marta Rezende | economista, consultora em projetos e produções culturais.


domingo, 24 de junho de 2018

Uma dor desfigurada


Adeus, tristeza
Olá, tristeza
Estás escrita nas linhas do teto
Estás escrita nos olhos que amo
Não és de fato toda a miséria
Pois mesmo os mais pobres lábios te denunciam
Através de um sorriso
Olá tristeza
Amor dos corpos amáveis
Potência do amor
De onde a amabilidade surge
Como um monstro sem corpo
Cabeça decepada
Belo rosto da tristeza

Paul Eluard
(Tradução: Luiz Carlos Quirino)

Anima


... de um azul muito denso, o céu parece uma interminável lagoa de chumbo – num mundo virado de pernas para o ar – prestes a transbordar, ultrapassando os diques formados por edifícios: apenas mais uma gota já seria o suficiente. Mas não há gota excedente, e ele continua irredutivelmente parado, como bloco pesado de chumbo suspenso sobre nossas cabeças. Nem mesmo a brisa morna da primavera consegue produzir algum movimento.
Sigo sem pressa pela Avenida Cristóvão Colombo, observo a paisagem com seus objetos e seres em circulação. Procuro por um rosto amistoso em meio à torrente anônima que escorre pelas calçadas, um rosto humano que irradie alguma humanidade.
Todos parecem, no entanto, maquinais. Seus olhos apontam inflexivelmente para o horizonte, para o nada-além. Ninguém olha para o lado, muito menos nos olhos dos outros (lembro-me de ter ouvido, em algum lugar, que eles são espelhos da alma). O olhar fixa-se ao fim, o caminho é apenas um meio. Esses corpos locomotores são precisos, não se chocam. Eu, por outro lado, procuro por um andar vacilante.
Já faz algum tempo, tornou-se quase impossível de se distinguir, dentre todos esses aí, quem de fato está de corpo presente de quem está (ou não está) de corpo ausente – quem realmente é de quem já não é e não passa de um espectro incorpóreo. 
No início todo mundo achou ótimo o fato de não precisar sair de casa para a realização das tarefas cotidianas.  No lugar de si mesmos quase todos passaram a enviar seus hologramas, batizados de Anima pela empresa responsável por sua criação.
Contudo, depois de algum tempo, alguns efeitos não previstos e sobretudo indesejados começaram a aparecer. Num primeiro momento – enquanto houve possibilidade – eles foram omitidos, posteriormente negados, até que a verdade se impusesse de maneira categórica.    
Os usuários da nova tecnologia gradativamente deixaram de sair de casa com seu corpo físico e começaram a passar – por um período demasiado longo – conectados à central de comando, alimentando-se da pior comida industrializada: a mais abundante e de fácil acesso no mercado. Não demorou muito para começarem a engordar e acumular problemas de saúde decorrentes de uma vida vegetativa.
Os jornais levaram ainda algum tempo para noticiar a gradativa, porém rápida, metamorfose social que se disseminou como uma espécie de epidemia. Indivíduos, cada vez mais isolados, começaram a morrer por causa de problemas relacionados à obesidade – numa grande quantidade de casos mórbida. E não foram poucos os cadáveres que tiveram de ser rebocados por um guindaste.
Como se tudo isso já não fosse bastante grave, constatou-se após o início das mortes um fenômeno macabro: ao morrerem durante o uso da Anima, algumas pessoas ainda percorriam a cidade durante horas. Houve relatos de Animas que se locomoveram por mais de vinte e quatro horas sem saber que seu corpo físico já não possuía nenhuma vida – apenas uma consciência vagante.
Ninguém pareceu ligar. E tudo flui harmoniosamente como uma orquestra. Falta, porém, alguma dissonância ou desafinação que humanize essa sincronia quase perfeita. As ruas estão sempre limpas, nada fora do lugar, por todo lado há beleza, uma lisura minimalista e artificial – limpeza, organização e ascetismo tornaram-se pilares da organização social.
O vento balança a copa das árvores, mas é como se eu não pudesse senti-lo. A sujeição, ainda que voluntária, à planificação da vida em grupo parece ter anestesiado os sentidos de todos. Nesta avenida movimentada, não é preciso olhar no rosto de ninguém, e ninguém olha mesmo. Basta seguir a sinalização de trânsito destinada a automóveis e pedestres.
Há muito tempo já não são registrados acidentes. Todos respeitam os sinais visuais e sonoros que orientam a direção, a parada e a velocidade a serem empregados na locomoção. O convívio e a divisão do espaço entre humanos e máquinas adquiriu um caráter burocratizado e aparentemente seguro.
Os automóveis ainda não voam, e os androides com aparência humana não andam entre nós. As máquinas realizam a maior parte dos trabalhos, é verdade, entretanto em determinado momento de seu desenvolvimento as pessoas envolvidas acharam melhor que sua aparência seguisse outro rumo.
O futuro-Blade Runner não se realizou. Ou talvez tenha se realizado de maneira inversa: com os humanos aproximando-se cada vez mais de uma aparência e um comportamento maquinal.
Às vezes parece um tanto inverossímil a velocidade com que a tecnologia e as relações sociais evoluíram (nem sei se evolução é a palavra mais apropriada). Mas somente quando a tecnologia permitiu que os hologramas saíssem às ruas no lugar dos indivíduos, que de suas casas os controlavam, a revolução havia realmente iniciado. E a partir de então o mundo nunca mais seria o mesmo.
Durante a terceira guerra mundial, envolvendo principalmente EUA e Coréia do Norte, os soldados norte-americanos já não precisaram arriscar suas vidas nos campos de batalha. Foram enviados seus hologramas, controlados em segurança a partir de bases localizadas em seu país. A vitória foi arrasadora. A partir de então tal tecnologia se popularizou, invadindo o cotidiano de maneira inimaginável e irreversível. 
Agora, enquanto ando por estas ruas, onde espectros digitais e biológicos habitam e confundem-se, tenho a impressão de que eles sempre estiveram por aqui e de que, de alguma maneira, sempre fomos fantasmas.
A origem de tal tecnologia pode ser situada, sem muita precisão, entre as últimas décadas do século XX e as primeiras do século XXI, quando aquilo que foi chamado de “realidade aumentada” começou a dar os primeiros passos.
Inicialmente apenas como mais uma inocente novidade tecnológica; rapidamente, entretanto, obteve enorme sucesso ao ser incorporada aos jogos eletrônicos desenvolvidos para smartphones. Essa foi uma das aplicações que deram início à interação entre o mundo virtual e o mundo físico. Hoje pode parecer um tanto rudimentar, mas à época de seu desenvolvimento significou uma espantosa novidade: a possibilidade de seres humanos reais circularem pela cidade caçando monstrinhos virtuais e interagindo com o ambiente físico capturado pela tela de seus telefones.
Obviamente quase ninguém tem conhecimento desse tempo que parece tão distante e quase irreal. Hoje, às portas do século XXII, a tecnologia parece algo intrínseco à condição humana, fruto de uma linha evolutiva que talvez parta da descoberta do fogo, passando pela invenção da roda, da máquina a vapor até chegar à informática.  Ninguém imaginaria que o que parecia definir a condição humana também seria o software de sua desumanização.
Bizzz... Bizzz... Uma mutuca faz vários voos rasantes muito próximos ao meu ouvido. Tenho de me esquivar para conseguir me livrar das insistentes investidas, fazendo um movimento de corpo semelhante ao de um boxeador. Um boxeador ridículo. Do outro lado da avenida uma mulher me observa e ri discretamente da cena cômica durante alguns segundos. Ela é baixa e corpulenta, pode-se dizer que se encontra dentro do padrão contemporâneo de moda. É puxada por um cãozinho muito elétrico. A guia magnética permite que o animal se afaste alguns metros. Ao perceber algum risco, com muita tranquilidade e sem nenhum esforço, a mulher puxa-o novamente, para uma distância segura, através da força invisível que o mantém preso. O tom acastanhado de sua roupa mimetiza a pelagem do animal de estimação, tanto na cor quanto na textura. Além disso, o tecido aparenta possuir fibras macias que ondulam ao movimento. O traje é de uma sobriedade indefectível. Alheio a etiquetas, o cãozinho, por sua vez, evacua próximo ao meio-fio, e sua condutora imediatamente saca da bolsa o aspirador utilizado para a higiene em tais situações.
Ao se abaixar para juntar os dejetos, não se dá conta do carro que está saindo de uma garagem justamente ali onde – por estar atrás de uma árvore – ela encontra-se numa posição de difícil visualização por parte do motorista. O condutor, sem perceber nenhum risco, acelera o automóvel. Nesse momento grito e gesticulo, tentando chamar a atenção da mulher agachada.  Ela olha em minha direção, mas não entende o que estou gritando. Levanta-se e dá um passo para trás. O suficiente para colocá-la no caminho do automóvel que lhe atinge com tudo. Assustada, sua imagem se distorce, liquefaz e volta ao normal. O cãozinho, contudo, está agora junto à sarjeta, com a cabeça esmagada e os miolos à mostra, alguns pedaços foram arremessados ao meio da rua e seguem agora, não sabemos para onde, nos pneus dos carros que passam. Não ficarei para ver o desenrolar dos acontecimentos. Para mim já é o bastante. 
Alguns minutos e metros à frente, passo pelo viaduto da conceição, não vejo pobreza – pessoas dormindo sob o cimento cinzento e frio como ouvi em histórias sobre o passado. Apenas a limpeza, o aço e o concreto armado destacam-se na paisagem.
No centro da cidade lotado, pessoas de carne e osso e virtuais misturam-se, sem que possamos distingui-las. Não é permitido o toque em estranhos sem autorização, além disto, as penas são muito duras para quem infringe esta norma – daí a dificuldade na identificação da veracidade dos corpos por que passo. A liberdade individual e principalmente o direito à solidão – a uma vida individualista – passaram a ser protegidos com muita veemência pelo direito civil. Acrescentemos a isso o fato de a vida encontrar-se agora permeada por aplicativos para as tarefas mais simples, tudo passou a ser comandado por um algoritmo eficiente e frio. Tudo converge para o isolamento dos indivíduos.
Os índices de natalidade têm caído drasticamente, bem como o número de casamentos ou uniões estáveis. Todos parecem estar procurando respostas a sua solidão em outros lugares: aplicativos, jogos ou mesmo em outros indivíduos – de maneira virtual.
Eu não me contento, estou cansado, com os sentidos mutilados pela obliteração tecnológica. E se eu tropeçasse e ao cair me agarrasse ao pescoço do passante mais próximo? Eu cairia ou seria preso? Pelo menos talvez sentisse o calor natural da pele humana outra vez, mesmo que de uma forma breve. E aqui no centro há tanta gente.
O Mercado Público talvez seja um bom lugar, um lugar tradicional. Ele continua praticamente igual, os avanços tecnológicos pelo menos parecem não ter afetado sua aparência. A última mudança, lembro-me de ter lido num jornal alguns anos atrás, consistiu na troca dos materiais de sua estrutura que ainda fossem inflamáveis. Mas isso em nada alterou sua imagem, nem sua função. O cheiro de peixe continua a predominar pela manhã, os açougues exibem cabeças de porco em seus freezers e o Bará do Mercado continua ali, enterrado em seu centro.
As pessoas passam apressadas como se todas elas estivessem atrasadas para algum compromisso. Os rostos são anônimos e indiferentes – alguns entediados. Mesmo assim, ao longe, parado em frente a uma velha banca de revistas avisto um semblante conhecido. É meu amigo André. Já faz muitos anos que não nos falamos; seu rosto, no entanto, é inconfundível. Meu primeiro impulso é o de me aproximar, apertar-lhe a mão e dar-lhe um abraço. Exito por alguns instantes, porém. A decepção seria enorme se ele não estivesse de corpo presente, se em seu lugar estivesse passeando sua Anima.
Antes de eu decidir se vou até lá ou fujo, ele me vê e vem em minha direção com um sorriso amigável. Também vou ao seu encontro. Caminho alguns poucos metros, e neste momento tudo se torna escuro... Ouço um zumbido semelhante ao de um antigo rádio fora do ar... As imagens retornam, André está em minha frente gesticulando e falando algo que não consigo entender por causa do zumbido. Suas mãos parecem atravessar meu corpo... Tudo fica escuro novamente e, além do zumbido, sinto uma ondulação que lembra água em movimento, não em meu corpo, mas sim no escuro que parece rodopiar... As imagens voltam uma vez mais, André parece ter desistido do contato e afasta-se cabisbaixo... De repente o zumbido cessa, e a escuridão retorna, agora silenciosa... Ela parece permanente... Até o momento em que mesmo a escuridão... ...

LUIZ CARLOS QUIRINO