segunda-feira, 6 de julho de 2020

thoth

Todos parecem ter se acostumado aos gritos, a qualquer hora, em meio ao escuro de uma noite que insiste em ficar por muito mais tempo do que o tolerável. Agora, por exemplo, são três da tarde, e as anêmicas lâmpadas da casa me fazem forçar os olhos para que consiga prosseguir com minha leitura. Em determinados momentos eles lacrimejam tanto que tenho de fazer uma pausa para não ficar cego de vez. A capacidade do governo de fornecer eletricidade tem sido colocada à prova, já que a demanda aumentou consideravelmente desde que a escuridão chegou à cidade, por isso a luz sempre em meia fase, sempre um tanto insuficiente. Há pouco ouvi o que parecia ser o grito de um homem pedindo socorro. No início ligava para polícia, mas logo descobri que era inútil. Eles nunca apareciam. Então acabei desistindo. Todos têm medo, por isso preferem fazer de conta que não estão escutando nada. Só deus sabe o que se passa atrás de cada cortina cerrada. Pior certamente é a rua que de uns tempos pra cá está se tornando cada vez mais selvagem. Tenho a impressão de que a falta de luz, do sol propriamente dito, está afetando de maneira bastante negativa o comportamento dos indivíduos. Outro dia uma mulher ateou fogo num homem desconhecido. A polícia, como por milagre, apareceu nessa vez. A mulher alegou que o sujeito tinha roubado sua vaga no estacionamento. Então ela foi até um posto de gasolina, encheu um pequeno galão de combustível. Sua intenção era a de atear fogo no carro do sujeito, mas ao chegar lá ele estava entrando no veículo. Já estava se preparando para ir embora. Ela poderia ter deixado pra lá. Mas não. Antes que ele pudesse reagir, ela já havia o encharcado de gasolina. Ele tentou correr. Ela riscou um fósforo e atirou em sua direção. O fogo seguiu o rastro da gasolina e alcançou o sujeito. Quando a polícia chegou o corpo estava preto, carbonizado, envolto numa fumaça meio azulada. A mulher estava ao volante e dizia que iria esperar o corpo e o carro serem removidos para que ela pudesse estacionar.  


domingo, 5 de julho de 2020

thoth

Por detrás de minha cortina observo o vizinho colocando seu lixo para fora. Mal consegue se manter de pé com o peso do enorme saco de plástico preto... Dizem que participou de alguma das guerras. Não sei direito qual delas. Não importa. Já que hoje é apenas um ser que se distingue pela fragilidade, visível em seus braços flácidos e nas veias azuladas e salientes. O nariz e as orelhas enormes lembram bifes pendurados em seu rosto como adornos grotescos oferecidos pelo tempo. Ele vive sozinho na casa outrora  imponente, hoje apenas velha. Parece que após ter matado alguns homens na guerra passou o restante de sua vida, antes da aposentadoria, ensinando literatura a adolescentes numa escola pública... Mal consegue se manter de pé. Ainda mais numa rua tão escura e sem iluminação. Alguns poucos pontos fazem-se visíveis, muito precariamente, graças à luz que escapa de uma janela ou outra. Ele joga o saco na calçada. Não me fica claro se por impaciência, raiva ou pelo peso. Sua expressão, entretanto, é uma mistura de cansaço e indiferença. Então estou inclinado a supor que o peso fora demais para seus braços magros. Com a queda o saco se abriu parcialmente. O velho parece não se importar. Olha em direção à minha casa e, apesar da escuridão, tenho certeza de que me viu entre as cortinas. Sua porta bate com uma força incompatível com sua figura. Fico mais alguns minutos observando a rua, já que meus olhos tiveram tempo de se acostumarem à penumbra. Um cão magricelo se aproxima do lixo e aproveita o fato do saco estar meio aberto. Enfia o focinho à procura de algum alimento. Dá umas cheiradas e puxa algo de dentro. O objeto cai de sua boca. Não sei se por causa da escuridão ou da distância encontro, mas posso jurar que o que o cachorro abocanhou dentro do lixo do velho era um dedo, parecido com uma salsicha arrochada. Ele o pega novamente. Sai saltitando em direção ao beco e desaparece.            


sexta-feira, 3 de julho de 2020

mais rente ao couro

a lâmina raspa as escamas

para que eu possa me ajustar

à nova pele

 

de novo

 

e outra vez o corpo

coberto de rachaduras

na cabeça o diadema de ervas

ruins e nunca mais

 

o ouro

 

apenas a visão noturna

das fraturas por onde

passo no escuro

 

ou testo

nas ruas despovoadas

meu esquecimento

 

[...]

 

na maré vazante sonhei

com a possibilidade de travessia

junto aos peixes e os deuses

num aquário

 

sufocamos rente ao vidro

muito mais mudos

 

e se nadássemos

com os pés ao contrário

para que lado iríamos

ou

nadaríamos em círculos

rente às bordas

 

e a curvatura de nossas costas

denunciaria a tentativa de fuga

e as escamas denunciariam

o pássaro que se afoga



luiz carlos quirino 

quarta-feira, 1 de julho de 2020

thoth

A cidade já estava às escuras há mais ou menos duas semanas. Eu acho. Não saberia dizer ao certo. Lembro-me apenas de que aqueles dias pareciam estar correndo de uma maneira muito mais veloz do que o habitual. E quando digo que a cidade estava às escuras quero dizer que durante todo aquele período o sol não apareceu nem um segundo sequer. Os especialistas suspeitavam de que tinha algo a ver com certa anomalia relacionada à posição da lua e dos polos terrestres e com um ângulo desfavorável que fazia com que apenas um pequeno ponto, de algumas centenas de quilômetros, não fosse atingido pela luz solar. E quando digo que o tempo parecia correr de uma forma muito mais veloz do que o habitual quero dizer que os acontecimentos desencadeados por tal anomalia foram responsáveis, em grande medida, pela vertigem que se seguiu. Já que não demorou muito para que a relação aberrante entre a terra e seu satélite natural refletisse no comportamento dos habitantes da cidade. Pelo menos foi o que me pareceu.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

debater-se do peixe
contra os azulejos
salto em rotura que
estilhaça as escamas
e a porcelana em fio
em direção aos olhos
[imolação da imagem
e tudo que está fora]

ruína
tétano e
ferrugem

impossível ressuscitar
os mortos como carne
já que nada germina em
superfície impenetrável

mesmo sêmen
apodrece sem
conhecer a humilhação
do nome ou sepulcro
sob a chão

antes nasce para o invisível
e já não pesa a mesma velocidade
do que tem centro e precisão

estação de colheita e aridez
recolha do gesto e esgotamento
que se lê como arma

palavra
antes da semeadura
a guerra e as mães
que se explodem
contra os guardas

por seus filhos
gravados nos
azulejos


luiz carlos quirino 

terça-feira, 16 de junho de 2020

o pensamento em sua morada
ainda não funda o primeiro princípio
– destruição e arkhé do próprio
rastro –

nem a voz e seu alcance limitado
o princípio se faz ao meio
até o fim

nascer é tão anacrônico
quanto impossível
melhor seria desistir
de riscar a noite em
fagulha descomedida

tenho todas as idades
menos o tempo que me
resta

e é preciso procurar entre
os escombros algum sinal

tenho todas as cidades na
poeira dos pés deformados
pela lucidez

e já nem lembro quando a
humanidade deixou de existir

o macunaíma entre ruínas fala
do país do futuro que nunca foi
que refina suas mnemotécnicas
de destruição entre os expirados

os quase-mortos
um quase-vivo


luiz carlos quirino 

sexta-feira, 12 de junho de 2020

o aberto abarca todo o fora
como um dentro que se abre
em violenta indiferenciação
e o rosto se transforma no mundo
que lê meu semblante intraduzível

e os rios ao sul do futuro
invadem as margens
onde crianças dormem
nas casas em chamas

agora
despertamos submersos
agora
os submarinos planam
acima
e abaixo e ninguém
consegue pronunciar
o palíndromo que é meu
nome

já fomos adultos incompletos
quando sonhávamos
compulsivamente
tanto
quanto
mentíamos

não
não é verdade ou
talvez seja
não sei

corre
corre
para que tuas mãos
voltem a ser ágeis
corre
como se não fosses glacial
sobre o gelo que se rompe
– aberto que engole o corpo

a obesidade dos crimes
sobre uma fina camada
cortante


 luiz carlos quirino 

quinta-feira, 4 de junho de 2020

numa casa abandonada
como se o corpo não fosse
raquítico
a criança ainda brinca
e através dela não víssemos
as paredes desmoronadas
[com usura homem algum
erguerá casa de boa pedra
já que há tantos
menos bárbaros que nós]

a grinalda da noite
enrosca-se nas ferragens
das portas bancárias retorcidas
e arrastam os edifícios abaixo
e os cabelos grisalhos de
fuligem e unhas roídas
no talo e roupas novas
para estreia

de pés descalços
pisoteando o verbo intransitivo
tento não perverter a simplicidade
que se revela somente na oscilação
mais transparente da revolta
nas pedras retiradas dos bolsos
enroladas em cartas de despedida
e avisos de chegada

luiz carlos quirino 


domingo, 31 de maio de 2020

palavras proferidas
sob sol intenso
são sempre perseguidas
por uma sombra gigantesca –
tamanho que não consegue ter a voz

do animal que sonha acordado
e pensa viver entre os bípedes
e se projeta contra a sorte
rompendo o arame farpado
que o cerca

fazendo do urro
a brutalidade da luta
na densidão sufocante
do que não pode ser partilhado
nada importa a não ser
a valia do afeto

dos corpos que se encontram
e já são outros abaixo dos ossos
distantes da orla que se distancia
e os entrega uns aos outros

ave maria dos afogados
na última gota de vida perdida
nas frestas da terra rachada

ave maria sem asas que
bica o grão oneroso e estéril
dos mentirosos – já que

todas as letras têm lastro


 luiz carlos quirino 

quinta-feira, 28 de maio de 2020

me atenho à rotura do torso
e seu rastro gravado nas
pálpebras

erodidas

como se dobra um corpo que se apaga?

elegeria traçar uma rota no ar
e correr antes de seu ocaso
ou dizer uma sílaba de
respiração ofegante

contra o vido que separa o dia
embaciando suas possibilidades
talvez devesse jogar fora a faca
cega da língua e ser todo animal

afinal é preciso correr para além
ainda que não o suficiente para
que a carapaça de rinoceronte
republicano não nos esmague

é o corpo do trabalhador dobrado
que interrompe a engrenagem
da máquina – moída sua
carne em looping


luiz carlos quirino

sábado, 23 de maio de 2020

tudo que é exterior ao rumor
tudo que é virtual e sem peso
nas cercanias da tormenta
capturando o porvir e a
ave mais breve

arriscado xadrez
contra as ondas
até impedir que nos
devoremos mutuamente
ou bebamos a água
áspera de retidão

a monarquia coroada para que
tenhamos uma morte branda
ainda que a imagem cindida
assombre o boletim noturno

e não interrompa meu acanhado funeral diário
em que enceno a gênese a miríade e o colapso
em que tramo uma grinalda com o lixo
luminoso da civilização

era apenas o futuro ontem
desmitificado e o Leviatã à espreita
entre o tempo e o espaço

purifiez nos coeurs da
destruição infinita da fala –
instalação definitiva da surdez


luiz carlos quirino

terça-feira, 19 de maio de 2020


dócil à voz do ser
                 – escoa todo
o pensamento nos
corredores anacrônicos
tão largos quanto as
artérias da metrópole

em cada esquina um acidente
bloqueia o fluxo das horas

exaure
minha
gramática
de aporias
e apostas no
amanhã

atrás de cada janela iluminada
um duplo do que poderia ter sido
preso ao anagrama da vida provável
como léxico das coisas do mundo

ontem
após
ontem

agora conto apenas com o trabalho
de minhas próprias mãos: do
ser no tempo – sein und zeit
atrofiado entre os dedos
e os dentes cerrados
machucam a voz
– logos do corpo
sentado à espera


 luiz carlos quirino 

sábado, 9 de maio de 2020


e os pés desaprenderam
a tocar o chão
de tanto seguir caminhos
que os fizeram delirar
ou talvez seja meu corpo inteiro
irradiando reflexos sanguíneos
– translúcido e sem peso

y hasta lês hablé de los oráculos
y sibilas de la Antigüedad
y de que los delírios
nos precipitavam
contra o tempo circular
porque nada acaba nunca

e a vertigem é a forma
de vida do animal que uso
para contar em palmos a distância
entre meus pés e os estranhos sonhos
que me assombram na vigília

me fazendo cego
nas primeiras horas
animal tateante sobre
uma superfície metafísica
quando o sonho em cacos
retalha a manhã cotejando
sobre as casas ainda
apagadas



luiz carlos quirino